Nasci em Cabrália Paulista, onde passei minha infância e adolescência. Era muito feliz e sabia disso. Nadávamos no rio Lambari, caçávamos de estilingue, armávamos arapucas e caçávamos com gaiola (um dia peguei um azulão com chama de pintassilgo).
E, por falar em infância, sem querer filosofar, bateu uma saudade incrível, onde andará o Elias, Pifana, Toninho, Camponez, Bagre, José Ulisses, Otávio Paulinho, Coite, Neutro, Tito Garbulho, Cley Amauri, Moacir irmão do Ventino, Adamir filho do cabo Alfredo, Valtinho Tobias, Mário Caneta, seus irmãos Alcides e Arzélio. O Emídio e o João Camargo vejo sempre aqui em Bauru e o finado e saudoso Zézinho do Severino, amigo de todos os dias não poderia deixar de ser citado.
Bem o assunto aqui é pescaria. No rio Lambari tinha cinco pontes: ponte dos Tobias, ponte do Anésio, ponte do Bueno, ponte do Botelho e a ponte do Banheirão onde nadávamos todos os dias. Numa certa tarde, fui pescar com um grande e saudoso amigo já falecido (já estão pensando em mentira), senhor Luiz Delfino, muito conhecido como “Amigo”, porque chamava a todos assim.
Estávamos pescando no rio Lambari, abaixo da ponte do Anésio onde tinha um belo capão de mato com fama de assombrado, mas tinha um poção que, durante o dia, pegávamos lambaris, piavas (chamávamos de Ferreirinha) e quando ia anoitecendo, pegávamos umas boas traíras com uma velha vara sem ponta de espera.
Anoitecera. Os pássaros se calaram e o meu companheiro tomava seu café na sua inseparável garrafinha de vidro para fumar seu paieiro, espantando os pernilongos. A lembrança de que aquele lugar era assombrado veio logo. Animais de hábitos noturnos começaram a se fazer presentes; um lagarto aqui, um preá ali, com canto de coruja, um curiango. Eu com meus 15 anos mais ou menos, já pensava em ir embora. O Amigo tinha idade para ser meu pai.
Quando os silêncios noturnos se tornaram insuportáveis, tétricos, ouvimos um som acanhado, baixo mas muito claro: olê muié rendera...olê muié rendá... Ficamos arrepiados. Olhamos um para o outro e perguntamos em coro: O que é isto? Depois de ouvirmos a música outras vezes, descobrimos, com a ajuda de um lampião a carbureto, o que estava acontecendo. Um minúsculo pedaço de disco de vinil com um caramujo em cima boiava enroscado no espinho de um arranha gato que produzia aquele som. Olê muié rendera... Olê muié rendá...
É ou não é Amigo? Ele está no céu rodeado de amigos.
Manoel Zapater Rios é um vovô cheio de histórias para contar.