Neste mundo que nos faz camaleões, tantos os perigos, tantas e tão rápidas as transformações, as inovações; neste mundo em que impera o capital, o material, no que se transformou o Natal? Numa data importante. Mas pra quem? Para vendedor, comerciante. A natureza econômica acabou por encobrir a razão, a grandeza da comemoração do nascimento de Jesus. Tempo de Natal agora é sinônimo de comercial, do tilintar do vil metal. É pano de fundo para vender o mundo. Pedra de toque para acabar com o estoque. Avalia-se o Natal pelas estatísticas comerciais, pelo gráfico das vendas. É bom se se vender mais. Natal virou dia de empanturrar-se, embebedar-se. O exagero é o que o move. Atualmente, noite de Natal, na verdade, tem de ter Engov, Sonrizal. É a realidade!
É hora de viver o verdadeiro Natal, em que o aniversariante seja o personagem principal. Natal precisa ser tempo de introspecção, de pausa para reflexão, para auto-avaliação. Será que estamos fazendo o que Jesus Cristo ensinou? Natal tem de ter magia, união, comunhão, alegria, confraternização, harmonia. Tem de ter elevação. Um presente é bom. Todavia, mais importante do que dar presente é estar presente. Mesmo que seja num telefonema, numa carta aos pais, irmãos, amigos que estão distantes. O espírito do Natal tem de ser de aproximação. Servir para atenuar a saudade que chora no peito de quem fica, de quem foi embora. Esperança de novo porvir, de sorrir mais amiúde, sentir mais emoção, ter mais atitude, mudar para melhor; agir com o coração, pois é ele que leva à razão; construir pontes, ampliar horizontes, evoluir espiritualmente, plantar sementes; perseverar, acreditar, sonhar, renovar, aproveitar oportunidades, ter humildade, fugir da fogueira das vaidades.
Natal de verdade é tempo de meditar, valorizar a vida, agradecer por tudo, pela comida; de regar a fé, o amor; é tempo de renascer, crescer, reaprender a gostar das pessoas, o bem-querer; a ver a beleza nas coisas simples, na natureza, no colibri, nos animais, nas nuvens no céu, no bem-te-vi, nas abelhas fazendo mel, nas crianças, em versos rabiscados no papel. Ver quão valiosas são as pessoas que nos cercam, grandiosas as amizades que temos, importantes as coisas que fazemos. É recomeço, ter apreço, saber relevar erros alheios, perdoar, procurar meios de melhorar a convivência, as relações, a coexistência. Aceitar as imposições da natureza, ter calma, certeza de que, apesar de tudo, ainda há pureza de alma. Saber enxergar a verdadeira essência, atender aos ditames da consciência. Enfrentar todas as situações, ter princípios, resistir às tentações, não gastar por impulso. Aprender a amar incondicionalmente, a cuidar do corpo e da mente, livrar-se de vícios, das coisas que só trazem malefícios, a ter alegria constante, bom humor, a viver intensamente cada instante.
Absorver a paz, a serenidade, a bondade que Cristo transmite. Com isso gostar dos outros por gostar, praticar a fraternidade, a solidariedade, lutar para reduzir as desigualdades, as iniqüidades, para acabar com a fome, a indigência, as injustiças. Sentir felicidade na felicidade do outro, na brisa, na chuva que fertiliza a terra, na vista bonita da serra.
Natal deveria, enfim, ser isso: um dia especial. Como todos os dias. Afinal, não é só no Natal que se deve abrir o coração. Não é só no Natal que os excluídos precisam de inclusão, que os famintos necessitam de pão. Tudo de bom que o espírito de Natal estimula a fazer deveria durar o ano inteiro, em vez de esvair-se logo em janeiro. Natal é dia do menino Deus. Vamos louvá-Lo. E que, sob o manto da paz e da calma, cada um se encontre com sua alma.
“Menino Deus, um corpo azul-dourado/ Um porto alegre é bem mais que um seguro/ Na rota das nossas viagens no escuro/ Menino Deus, quando tua luz se acenda/ A minha voz comporá tua lenda/ E por um momento haverá mais futuro do que jamais houve/ Mas ouve a nossa harmonia, a eletricidade ligada no dia/ Em que brilharias por sobre a cidade/ Menino Deus, quando a flor do teu sexo/ Abrir as pétalas para o universo/ E então, por um lapso, se encontrar no anexo/ Ligando os breus, dando sentido aos mundos/ E aos corações sentimentos profundos de terna alegria no dia/ Do menino Deus/ No dia do menino Deus” (A Cor do Som). Feliz Natal a todos.
O autor, Paulo Pereira da Costa, é 7.º promotor de Justiça de Piracicaba