Cultura

Sobre mundos: O espírito de Natal

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

A rua 25 de Março sempre foi o ponto forte das compras em São Paulo. Ali grandes e pequenos comerciantes e os chamados “sacoleiros” adquirem suas mercadorias para revendê-las em suas lojas. Um dos momentos de mais expansão dos negócios é, sem dúvida alguma, a época do Natal. Graças a este período lucrativo, surgiu entre os judeus e árabes, que vivem e trabalham em perfeita harmonia, uma tradição. Depois do estresse das vendas para o Natal, todos os comerciantes reúnem-se no dia 25 de dezembro para uma confraternização. Nesta são homenageados aqueles que tiveram mais sucesso nos negócios.

Durante uma destas confraternizações, depois de terem feito as homenagens aos bem-sucedidos nas vendas no Natal daquele ano, um dos comerciantes mais velhos tomou a palavra afirmando que o maior vendedor não fora homenageado. Criando ainda mais curiosidade entre os presentes, o velho judeu deixou o salão retornando alguns instantes depois com um embrulho debaixo do braço. Aquele velho comerciante desembrulhou, então, um crucifixo e explicou a todos que Jesus era, na verdade, o maior vendedor judeu, pois seus seguidores conseguiram tornar a festa de seu nascimento o negócio mais lucrativo do ano.

O sistema capitalista possui a flexibilidade necessária não somente para adaptar-se a qualquer cultura, mas principalmente para assimilar aspectos culturais diversos tornando-os parte integrante da economia de mercado. Até mesmo os movimentos “contracultura”, como foram os movimentos hippie ou o punk, tornaram-se rapidamente objetos de consumo. Neste contexto de assimilação, as tradições religiosas não constituem uma exceção. As duas principais festas cristãs, Natal e Páscoa, tornaram-se, com o passar do tempo, ótimos momentos de produção e movimentação de capital.

Diante do aproveitamento das festas religiosas como estratégia de marketing, o cristão encontra-se diante de um desafio: reencontrar o sentido religioso de suas tradições. Nesta busca, é importante entender que o Natal possui necessariamente duas dimensões fundamentais. A primeira é um olhar para o passado, ou seja, a lembrança de um momento mágico da história da humanidade. No Natal comemora-se “nativitas domini”, o nascimento de Jesus Cristo. Na verdade, a data não possui fundamento histórico. Apesar de 25 de dezembro ser festejado desde o ano de 336 como o aniversário de Jesus, não se sabe exatamente quando Jesus Cristo nasceu. Essa falta de exatidão na data não possui, porém, grande importância. O fundamental é a lembrança do nascimento de Jesus Cristo entre nós e a importância deste fato para a nossa vida.

A segunda dimensão do Natal é um olhar para o futuro, ou seja, a orientação para uma vida nova. Enquanto a primeira é festejada, esta segunda dimensão deve ser vivida. O Natal não é simplesmente a lembrança do fato de Deus ter se tornado humano, mas principalmente o momento, a chance, de nós humanos nos tornarmos mais divinos. Neste sentido, o Natal não é simplesmente uma festa, uma comemoração, mas sim uma experiência de vida. Na verdade, viver o Natal, ou seja, permitir que Deus renasça em cada um de nós, é renovar o “Sim” ao presente que Ele nos deu: a Vida.

O Natal é a chance de reiniciarmos uma nova caminhada, tornando este presente de Deus - a vida - algo de maravilhoso e divino, como ela pode realmente ser. Para que o Natal realmente aconteça, é fundamental pararmos um pouco para pensar sobre como estamos vivendo, o que está faltando em nossa vida e qual a decisão que devemos tomar para que sejamos mais felizes. Deixar que Deus renasça em nós é renovarmos as forças de viver sem medo de ser feliz.

Natal significa deixar que a “Luz” ilumine o nosso ser e expulsar qualquer tipo de “escuridão” que ainda está presente em nossa existência. Neste sentido, Natal é a chance de redescobrir a essência de viver, como expressa Henry Thoreau: “Fui à floresta porque queria viver profundamente e sugar a essência da vida. Eliminar tudo o que não era vida. E não, ao morrer, descobrir que não vivi”.

O Natal como aniversário de Jesus será de qualquer forma festejado, mas o Natal como experiência de vida só acontecerá se nos distanciarmos da atmosfera de consumismo, buscando um momento de solidão para refletirmos sobre nossa vida: o que é preciso ser transformado nela, o que está nos fazendo de alguma forma deixar de viver. Nós viveremos o Natal se, nesta reflexão, incorporarmos verdadeiramente o “espírito Natalino” e não deixarmos que ele fique reduzido a uma data. O espírito de Natal, ou seja, o espírito de justiça, fraternidade, partilha e bem-querer, deveria renascer hoje em todos nós e continuar vivo através de nossos pensamentos e atos durante todo o ano de 2006. Afinal, como diz um provérbio oriental: “Aproveite o dia de hoje, falta menos tempo do que imaginas”. Desejo a todos um Santo e duradouro Natal!

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