Iacanga – A família formada pelo casal José Arrabal e Maria de Lurdes Silveira Arrabal criou um recanto à beira do ribeirão Claro com pomar, piscina, varanda, ateliê de artes, casinha para crianças, tudo cercado por muito verde, bem no Centro de Iacanga. Arrabal explica que escolheu a casa no número 15 da rua doutor Sebastião de Paula Xavier porque pretendia criar um lugar muito especial. Conseguiu porque, aos 43 anos, o filho Luiz Fernando fala com brilho nos olhos de quando aproveitava as águas limpas do ribeirão. Ele comenta que aos 14 anos juntava-se com uma turma, montava uma balsa com latões e ia para o meio do rio mergulhar em um ponto mais fundo. Luiz demonstra ter necessidade de aproveitar o modo de vida em que cresceu e, agora, usufrui cada canto com os filhos João Gabriel, de 4 anos, e Maria Elisa, de 7 anos.
Luiz trabalha em casa prestando consultoria como engenheiro civil para bancos estatais, o que facilita sua proximidade com os pais. “No meu caso, vivo muito para a família. Em Iacanga você não tem tantas opções como em uma cidade de porte médio ou grande”, conta. Luiz acrescenta que, menos focado num modo de vida centrado no consumo por impulso, sua família consegue aproveitar melhor o lugar em que reside. “Às vezes, você compra coisas que não precisa. As pessoas complicam muito. A gente tem que parar e viver mais intensamente as coisas naturais. Espero conseguir oferecer as mesmas oportunidades aos meus filhos”, ensina.
Ele só não convive bem com a poluição do ribeirão, porém está confiante de que a degradação do manancial vai ser superada. “Eu acredito no turismo e a taboa desaparece com a limpeza do rio”, sugere.
Alexandre Silveira Arrabal, 36 anos, trocou Bauru pela proximidade da família após o nascimento da primeira filha. Ele comenta que, ainda hoje, deixa as portas abertas e a chave no contato e, na volta, o carro está intacto. Ele avalia que existe violência em Iacanga, mas nada que se compare a cidades maiores.
Coraly Ferraz da Silveira, a tia Coraly, residiu em São Paulo por 60 anos e quando ficou sozinha na Capital escolheu a família da sobrinha “Lurdinha”. A senhora de 88 anos é professora aposentada, poetisa e pintora. Maria de Lurdes conta que a tia Coraly sempre teve dom para a pintura. Na casa, a família organizou um cantinho todo especial para a tia. Coraly desfruta de um apartamento, decorado com imagens de santos e quadros, em especial uma imagem de Jesus Cristo se destaca na parede da recepção. Dos quadros pintados por tia Coraly, o Jesus Cristo foi o único que a senhora não quis se desfazer.
Em outro cômodo da casa, José Arrabal construiu um ateliê para que a esposa desenvolvesse suas habilidades no artesanato. O casal tem dom para atividades manuais, o que pode explicar a opção pela profissão de dentista. José ressalta que foi o primeiro dentista concursado, em 1971, a assumir a função no posto de saúde em Bauru (CS1). Maria de Lurdes relembra que também trabalhou em centro de saúde em Bauru e, posteriormente, mudou-se para Iacanga, onde trabalhou na Escola Padre Jorge Mattar. Aposentados, o casal é muito ativo. Ela é artesã, pesquisa e produz peças com sementes e taboa. Em sua oficina, mandalas, colares, pulseiras, bancos de tabua ganham formas. Maria de Lurdes e a irmã Ana Maria Bello Santorsula produzem peças exclusivas montadas com sementes e outras trabalhadas com fibra do vegetal colhido na zona urbana e beneficiado pela prefeitura. A dupla integra a Associação de Artesanato de Iacanga (Associarti), que hoje possui 23 associados.
José Arrabal foi agregando mudas ao pomar que hoje tem duas mangueiras da variedade espada e que garantem sombra nos arredores do imóvel, comprado em 1974.
Do pomar à beira do ribeirão há uma área que pertence à Companhia Energética de São Paulo (Cesp). Este local foi reflorestado com sementes de açaí que José Arrabal buscou no Paraná. Em volta da piscina, o morador plantou a mesma semente que já está bastante desenvolvida oferecendo um paisagismo e, futuramente, o palmito comestível.
Aposentado há sete anos, José colhe laranja especial para doces caseiros, poncã, tangerina, laranja baiana, acerola, mamão, jambo e uvas rosadas e verdes. Tudo com o frescor e sabor de fruta tirada do pé sem gosto de agrotóxico.
Os vários netos se divertem cada um com seu coelho. Esse tipo de vida faz José Arrabal considerar Iacanga imbatível. “Conheço a Europa, onde visitei guiando por vários lugares. Morei em São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, mas aqui é uma cidade ótima para se viver”, finaliza.
A família começou a se reunir no começo da semana para os preparativos das festas de fim-de-ano. Além de Luiz Fernando e Alexandre, o grupo se completa com Maria Helena, José Ricardo e Adriana. Maria de Lurdes preparava-se para recepcionar filhos, noras e netos mantendo a tradição do encontro no Natal e passagem de ano.