“Tanto o musgo; quanto a samambaia; precisam d’água pra fecundação; gametófito é N; esporófito é 2N; alternância de geração.”. Plágio da marchinha carnavalesca “Máscara Negra”, o trecho musical é cantado com muito bom humor nas aulas de biologia do professor Antônio Miguel Garcia.
Toka, como é conhecido pelos estudantes do ensino fundamental, médio, pré-vestibular e universitário, leciona em quatro escolas da cidade: “Ada Cariani”, Preve Objetivo (unidades Bauru e Lençóis Paulista) e Instituto de Ensino Superior de Bauru (IESB).
Há três décadas atuando na área educacional, o professor bauruense, de 53 anos, tornou-se famoso por utilizar uma metodologia diferenciada em suas aulas de biologia: complementar o conteúdo teórico com trechos de músicas.
“Os alunos não cantam música pela música e acredito que ocorre uma aprendizagem significativa. É um caminho para se atingir um entendimento”, explica ele, em entrevista concedida no último dia 15 ao Jornal da Cidade.
Nada mais prazeroso do que memorizar a classificação dos seres vivos, desenvolvimento dos equinodernos, anelídeos ou outras nomenclaturas cujos nomes são difíceis de fixar por meio de versos musicais, aponta o professor.
Segundo ele, além de facilitar o aprendizado, um dos objetivos da metodologia é ajudar os vestibulandos a relaxar. Além disso, é uma forma de estreitar o relacionamento entre professor e aluno.
“Para que ocorra aprendizagem tem que haver afetividade”, defende Toka, que chegou a formar um conjunto musical com alunos, com direito a violão, timba e percussão. No repertório, com certeza, as músicas usadas nas aulas de biologia.
Detalhes sobre a metodologia adotada por Toka, além de um breve perfil sobre o professor - casado há oito anos com a também professora Vera e pai de três filhos de 23, 18 e 5 anos, entre outros temas -, foram abordados na entrevista a seguir. Compartilhe os melhores trechos.
Jornal da Cidade - Quando teve início sua carreira?
Antônio Miguel Garcia, o Toka - Me formei em 1975, na antiga Fafil, onde hoje é a Universidade do Sagrado Coração (USC) em ciências com complementação em biologia. Começei a dar aulas em 1976, nos Cursos Brasília, uma instituição de ensino supletivo que existia na avenida Rodrigues Alves. Depois, passei por várias escolas, entre elas Liceu e o Colégio São José.
JC - Como é a metodologia que o senhor utiliza em sala de aula? É uma criação sua?
Toka - Não, alguns professores cantam essas músicas nas aulas. Existe um conteúdo, que é passado normalmente, através de uma aula expositiva, e a música é uma forma de complementá-lo. Os alunos não cantam música pela música e acredito que ocorre uma aprendizagem significativa. É um caminho para se atingir um entendimento melhor da matéria. Eu comparo as músicas (usadas nas aulas de biologia) ao Hino Nacional. Todo mundo sabe cantar o hino, mas será que todos sabem interpretá-lo? Através da música, o professor explica item por item das estrofes e, juntamente com o conteúdo exposto e os exercícios, eles vão entendendo melhor a matéria. Esse caminho poderia ser alcançado por meio de uma excursão, filme ou experimento, o qual eu desenvolvo no curso de pedagogia. É como se um professor de história fosse falar sobre a filosofia que existia na Idade Média, e utilizasse o filme “O Nome da Rosa”. Ele continuaria falando em história medieval e do espírito filosófico que existia naquela época. Nas minhas aulas, eu exponho o conteúdo da melhor maneira possível e coloco alguns itens importantes através da música. Isso porque o aluno que vai prestar vestibular está muito tenso; nós, professores, já estamos estressados, então, imagine um aluno com 17 ou 18 anos que têm além de biologia, tem química, física, matemática e outras matérias para estudar? Os estudantes recebem uma mega-informação todos os dias e as músicas procuram aliviar o estresse.
JC - Além de ajudar a relaxar, a metodologia busca atrair a atenção dos alunos em sala de aula?
Toka - Eu procuro mexer com a emoção e com os sentimentos, porque, dessa forma, os alunos extravasam e se interessam pelas músicas. É uma forma de fixação de conteúdo, de entender termos difíceis. Por exemplo, tem uma música que fala dos equinodernos, a qual é cantada como plágio do hino do São Paulo. Na biologia, os termos são difíceis e, normalmente, eles são derivados do grego e do latim. No Brasil, estudamos português e inglês e cantando as músicas e explicando esses termos, o aprendizado fica mais fácil.
JC - É uma forma prática e eficaz de se exercitar o aprendizado?
Toka - Eu gostaria de frisar que não é música pela música. Elas têm conteúdo, o qual é passado pelo professor; as músicas são cantadas no final da aula. Os alunos copiam e depois cantam. Quem cantar legal ganha balas, às vezes, divido a classe entre meninas e meninos, alguns fazem batuque, outros cantam no microfone. Entre 1998 e 1999, em outra escola que eu dava aula, formei um conjunto e, de vez em quando, nos reuníamos. Uns levavam o violão, o outro o pandeiro e a timba. A amizade foi tão grande que o conjunto se chamava Sansão e os Feras do Cursinho. A metodologia é uma maneira interessante de se descontrair.
JC - O senhor começou a utilizar a música nos anos 90. De lá para cá, qual a diferença que o senhor sentiu no aprendizado em sala de aula?
Toka - Os alunos para quem eu dei aula - para muitos eu fui professor desde o 1.º até o 3.º e alguns até no cursinho - contam que a aprendizagem é muito maior. Até hoje nenhum ex-aluno que encontrei disse que não gostava das minhas músicas. Pode ser que as músicas não ajudem no vestibular porque elas estão ligadas com a parte tradicional da biologia e não com a biologia genética e moderna, mas quando os alunos encontram comigo, lembram das músicas.
JC - Além de serem sua marca registrada, as músicas ajudam a aproximar o professor e o aluno?
Toka - Sim, eu sou amplamente favorável a essas músicas. Através dessa metodologia, se passa a ver o aluno, ter o contato olhos nos olhos. Para que ocorra aprendizagem tem que haver afetividade.
JC - Por quê?
Toka - Porque se o aluno gostar do professor, ele passa a gostar da matéria. E vice versa. Eu fico meio chateado quando o aluno fala que a biologia é decorativa. Ela não é decorativa. Os termos utilizados normalmente são derivados do latim. E, quando o professor explica os termos, quando o aluno entende o que significa um molusco ou um anelídeo, ele passa gostar da biologia. E, através da música, passa a entender e aprender um pouco. A música une, mexe com a emoção e a afetividade, é como se fosse uma terapia. É uma forma do aluno se descontrair, ficar calmo e tranqüilo na época do vestibular. Costumo dizer para meus alunos: “Quem canta, seus males espanta, aprende biologia e passa no vestibular.” (risos). A metodologia é uma forma de desestressar e rever a matéria.
JC - Quais são as principais dicas para quem vai prestar vestibular?
Toka - Ter muita calma, adotar uma boa alimentação, repousar no mínimo oito horas por dia e praticar atividade física. Além disso, é preciso ter confiança porque o aluno estudou, se preparou, compareceu às aulas e aos plantões. E, por isso, é preciso ter muita autoconfiança.
JC - As músicas são mais voltadas para os alunos do ensino médio e pré-vestibular. A metodologia também é aplicada no ensino infantil?
Toka - Sou muito incentivado pela minha esposa, que é a grande mulher da minha vida. Ela dá aula para o ensino infantil e diz que a música fala com coração, fala para a alma e o aluno se entusiasma, unindo o útil ao agradável, passa a gostar da matéria e aprende. Para os alunos do ensino fundamental, eu canto algumas músicas, principalmente para as 6.ª e 7.ª séries, mas com a devida adequabilidade. Na 6.ª série, por exemplo, se estuda os seres vivos e cantamos músicas sobre o tema. Na 7.ª série, é abordado o corpo humano e existem músicas que falam das células, tecidos e órgãos. Nós cantamos as músicas seguindo a devida adequabilidade. Se vou falar do sistema digestivo, por exemplo, posso fazer uma experiência, passar um filme e cantar músicas. E o que realmente grava são as músicas.
JC - Como o senhor analisa o cenário educacional do País?
Toka - Acho que o governo deveria analisar melhor a educação, não apenas porque ela e a área de saúde aparecem em primeiro lugar na propostas do governo. Eu, por exemplo, tenho que trabalhar em quatro escolas para poder me sustentar e dar uma vida digna para minha família. O governo deveria pagar melhor os professores para que eles tenham um salário digno e sejam valorizados. Mas como o professor não pode esperar do governo, ele tem que batalhar, não pode ficar acomodado e tem que estudar. Na minha opinião, a relação professor/aluno deve ser baseada em quatro temas: o professor tem que dominar o conteúdo, a metodologia, a disciplina em sala de aula e o relacionamento. Em se tratando de políticas educacionais, ressalto que o governo investe, mas poderia investir muito mais, não só em relação a carreiras universitárias, mas investir no professor do ensino médio, fundamental e básico.
JC - Como o senhor avalia o projeto de lei em tramitação no Governo que propõe a ampliação de oito para nove anos no ensino fundamental, com matrícula obrigatória aos 6 anos?
Toka - Eu sou favorável desde que a proposta seja bem discutida, não seja imposta de cima para baixo, mas que os professores que atuam no ensino fundamental, os diretores e as pessoas inseridas no contexto sejam ouvidos. Dessa forma, acho válido. Outro projeto interessante é o projeto do governo do Estado para modificar as aulas do período noturno: ao invés de quatro seriam cinco aulas. Eu sou favorável a essa proposta, mas desde que nesse período o professor possa realmente desenvolver o conteúdo da aula.
JC - O senhor dá aulas diariamente em quatro escolas. Como conciliar a profissão e o tempo com a família?
Toka - É difícil porque, normalmente, eu saio meio-dia de Lençóis Paulista, chego em Bauru, almoço, descanso um pouco, entro no Objetivo às 16h e vou até as 19h no ensino médio e pré-vestibular, onde dou plantão e aulas para o terceiro colegial e semi-intensivo. Depois das 19h vou para o IESB, onde tenho outra realidade. Como tenho pouco tempo para a família, procuro conciliar com minhas filhas, elas vão até minha casa ou eu saio com elas junto com minha esposa e meu filho nos finais de semana. Além disso, conversamos muito por telefone. Sei que não sou aquele pai 100% presente em todas as horas. Procuro ter muitos momentos para a família, mas poderia ter mais. Minha mãe, por exemplo, me pergunta quando eu vou entrar em férias e eu respondo: “Nunca”.
JC - As férias não estão em seus planos por conta do trabalho?
Toka - Nunca vou entrar em férias porque tenho projetos para o futuro. Sou apaixonado pelos estudos. Quero fazer doutorado, especializações e, no ensino universitário, quero me dedicar a algumas disciplinas. Não posso e não devo parar de estudar porque tenho que continuar me aprimorando cada vez mais. Na biologia, novas descobertas estão acontecendo e preciso aprimorar meu conteúdo sempre.