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Médica ‘salva’ 16 crianças da rua

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Era uma vez 16 crianças que viviam em Botucatu em situações precárias. Algumas doentes, outras maltratadas, todas sofridas. Não acreditavam em sonhos e a vida já tinha perdido o sentido. Para que elas voltassem a acreditar no futuro, apareceu uma fada madrinha. Com sua varinha mágica, ela transformou o pesadelo em sonho. Atualmente, todos vivem felizes na casa encantada. A história que mais parece um conto de Natal é real, as crianças existem e a fada madrinha é uma médica daquela cidade.

Elenice Deffune é uma dessas raras pessoas que estão sempre de bem com a vida. Ficar ao lado dela é receber uma dose excessiva de energia positiva e ânimo para prosseguir. Dentre todos os projetos que já desenvolveu, inclusive na França, onde fez seu doutorado, o mais importante foi optar pela simplicidade e pela doação.

Solteira, ela sonhou ter oito filhos, todos adotivos. Uma herança de família, seus pais tiveram cinco. Em pouco mais de 10 anos, o objetivo foi alcançado. Hoje, ela é mãe de 16 crianças.

A maternidade trouxe mudanças na vida da diretora do Hemocentro do Hospital da Unesp de Botucatu. Entre elas, a exclusão de alguns termos do seu dicionário particular. As palavras egoísmo, individualismo e vaidade foram retiradas para dar lugar à sensibilidade, à solidariedade, ao amor e à doação.

“Crianças nascem de gente e precisam delas para orientá-las, compreendê-las e ensiná-las. As instituições não podem fazer isso.” Esta é a filosofia que norteia a médica desde a sua infância. “A idéia de ter filhos adotivos foi semeada em minha infância. Meus pais acolheram cinco, três foram adotados oficialmente.”

O primogênito Lucas chegou na vida da médica um ano depois dela ter se inscrito na lista de espera. “Como eu aceitava uma criança de qualquer raça, sexo ou idade, um ano depois chegou o Lucas. Ele tinha 4 anos e meio. Foi com ele que descobri o que era ser mãe. Acompanhei a transformação de uma criança maltratada, com um passado bastante triste.”

Quase todos os filhos de Deffune já enfrentaram situações de abandono, maus-tratos, doenças, espancamentos, fome, agressão sexual, convívio com drogas e alguns foram até testemunhas de crimes. “Eles se permitiram reescrever suas histórias. Eu digo que não posso apagar o passado deles, mas juntos podemos construir novas lembranças para que possam caminhar.”

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Irmãos de sangue e do coração

Depois do primogênito Lucas, vieram Bruno, Felipe, Simone e, sem muitas explicações, os outros foram chegando. “De uma só vez chegaram seis e, mais recentemente, quatro. Eles são irmãos e faço questão que fiquem juntos”, afirma a mãe Elenice Deffune.

Os seis irmãos chegaram numa situação muito calamitosa. “Estavam com piolhos, fome, vermes e uma das meninas tinha marcas de ferro quente pelo corpo. Qualquer cão com dono de classe média tinha uma vida melhor do que a deles. Não é preciso ir à África para ver essa situação. Basta procurar um bairro periférico de qualquer cidade, como em Botucatu.”

Esse grupo de crianças mostrou à médica que o mundo era mais cruel do que ela imaginava. “Eles vomitavam vermes vivos e não sonhavam. Tinham medo de tudo e sofriam demais.”

O grupo dos seis, como são chamados, chegou na casa da médica num momento difícil. “Uma das meninas estava fazendo quimioterapia. Tinha câncer e qualquer infecção poderia matá-la. Tivemos que colocar uma divisória na casa para recebê-los. A Simone está curada do câncer e os seis já estão saudáveis e felizes.”

Deffune frisa que, quando adotou Simone, não tinha esperanças de vê-la sorrir. “Ela tinha câncer e os pais a abandonaram no hospital. Eu pensei: vou dar a ela uma morte digna. Ela está viva, é linda e um exemplo de garra.”

Como a cada ano a médica recebia mais crianças, ela resolveu construir uma casa maior. “Construí uma casa apropriada para eles. Com lugar certo para os 12 que estavam comigo desde 99.”

Em outubro deste ano, as crianças estavam todas estabilizadas, com saúde e num convívio salutar. “Pensamos em trazer um bebê. A decisão foi tomada com eles. Eu expliquei que não faria essa exigência porque nunca impus critérios e todos deveriam ter a mesma chance. Adotar não é como comprar um objeto no supermercado.”

Só que, nesta mesma época, surgiu a necessidade de acolher os quatro irmãos. “Eu relutei por falta de acomodações. Mas todos concordaram em ceder espaço e tempo para receber os meus novos filhos. Avisei que, em função da chegada dos quatro, o Natal deste ano seria mais simples.”

Os filhos de Elenice foram criados para serem multiplicadores de sua filosofia de vida. “Quando eles se tornarem adultos e tiverem condições, serão pais adotantes, com certeza. Nós saímos para oferecer alimentação às crianças de rua. Eles não podem temer o passado deles e precisam ter respeito com o sofrimento alheio.”

Além de ir ao dentista, psicólogo, psiquiatra, natação e informática, os filhos da médica mantêm outro compromisso. “Todos os dias, exceto quando estou viajando a serviço, temos uma reunião após o jantar. Na mesa, com lugar para 20 pessoas, nós conversamos. Eu fico sabendo das dificuldades de cada um, das brigas e das vitórias.”

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