Didi (pai) e Ray Power tiveram dez filhos, sete homens e três mulheres, todos nascidos circenses, em vários Estados brasileiros. São jovens com idades entre 33 e 11 anos, unidos pelo sangue e pelo amor à arte, estampados em seus olhares.
A terceira geração já sobe ao palco, Matheus e Lucas Power seguem os passos dos avós e encantam a platéia com números de malabarismo, palhaços, tourada com bezerros e também na apresentação de outros artistas, especialidade de Lucas, já aos 7 anos. Nos moldes do circo tradicional, o Circo Irmãos Power viaja pelo Brasil com vários números, porém, o destaque principal são as acrobacias em touros.
“Nosso pai começou com pano de roda, com apresentações em touros. Ele viajava a várias cidades, até que em uma dessas cidades conheceu a minha mãe. Eles se casaram e montaram o circo”, recorda Didi, o filho. Ele comenta que os animais não viajam com a trupe. “Nós trabalhamos com os animais da própria cidade, o que deixa o espetáculo mais emocionante, pois não os conhecemos, mas nós gostamos do desafio, quando mais bravo, melhor. As pessoas sempre torcem para o touro, nunca para o toureiro.”
Didi faz questão de ressaltar que nenhuma violência é cometida contra os animais. “Também não usamos objetos que estimulem a ferocidade dos touros.” Sem feras, elefantes ou chimpanzés, os irmãos Power contam com números artísticos tradicionais, com trapezistas, equilibristas, contorcionistas, palhaços, aramistas, entre outros profissionais, e sempre buscam superar novos desafios.
Contemplado pela Fundação Nacional de Arte (Funarte), o Circo Irmãos Power também tem realizado espetáculos gratuitos em escolas e entidades beneficentes de várias cidades, contando, para isso, com o apoio das prefeituras. Recentemente a trupe esteve em Avaré, onde também desenvolveu um projeto com as escolas e encantou jovens e crianças. Nos últimos dias de 2005, os irmãos estarão se apresentando em Jaú, em lona instalada ao lado do Shopping Center.
“Também temos um projeto aprovado pela lei Rouanet, do Ministério da Cultura, mas a captação de recursos não é fácil. O projeto inclui atividades de circo-escola com as crianças, com cursos e workshops”, destaca Didi.
Mas a receita já deu frutos. Durante as atividades em Avaré, o jovem Ricardo Cachone Zanzarini, 15 anos, mergulhou no universo circense e seguiu a companhia, com o acompanhamento dos pais.
Vida itinerante
A vida circense, distante de ser monótona, não é nada fácil. “Há cidades que nos apóiam muito, nos cedem terrenos com infra-estrutura, auxiliam na divulgação e somos completamente isentos. Outras são mais complicadas, às vezes não conseguimos nem o terreno e cobram muitas taxas”, acrescenta Didi.
Os irmãos Power contam com a dedicação profissional com que conduzem o circo, primando pela segurança e originalidade para superar as dificuldades, além de forte religiosidade. Eles sempre fazem suas orações antes de entrar em cena e agradecem a Deus durante o espetáculo. O Circo Irmãos Power é o primeiro do Brasil a possuir uma estrutura de alumínio com 3.500 lugares. O espectador, de qualquer ponto das arquibancadas pode assistir ao espetáculo com conforto, visão e segurança.
A Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e a Associação Brasileira de Circo (Abracirco) editaram recentemente uma cartilha para orientar os municípios a receber as empresas circenses. Intitulada “O circo e a cidade”, a cartilha traz informações sobre a história do circo no País e também orienta como deve ocorrer essa relação entre ambos.
De acordo com informações da cartilha, até a década de 80 o Brasil contava com aproximadamente 3 mil companhias circenses. Hoje este número está reduzido a quase 400. Um dos motivos apontados para a redução é a falta de sensibilidade de prefeituras e autoridades municipais para o assunto. A iniciativa da publicação é revitalizar uma das mais importantes expressões culturais brasileiras.
Como diria o artista circense Wilson Nogueira, morto em 28 de dezembro de 1999, em Bauru: “Quem nunca passou por baixo de uma lona de circo, não teve infância”. Nogueira se apresentava como o palhaço Gira Gira e com seu circo Anahi viajou por muitos anos pelo Brasil com sua família.