Aos 7 anos, Ida Luiza Cestari Nogueira, agora com 59 anos, conheceu pela primeira vez o palhaço que roubaria seu coração para sempre. O artista circense Wilson Nogueira, palhaço Gira Gira, chegava em Barra Bonita, cidade natal de Ida, com o circo teatro Irmãos Nogueira.
“Naquela época, eu não imaginava o que iria acontecer. Me divertia com o palhaço. Via ele cantar nas comédias ou no trapézio”, recorda Ida. O pai, enérgico, só dava dinheiro para os ingressos. “Eu assistia o espetáculo com o meu irmão. No circo, vendiam umas sombrinhas cheias de balas e doces e a gente morria de vontade, mas não podia comprar.”
O tempo passou, Ida tornou-se uma jovem da sociedade e seu interesse por circo foi se perdendo. “Eu gostava de ir em bailes, não freqüentava mais os circos. Até comecei a namorar um rapaz da Cesp, que fazia engenharia. Eu estava noiva e minha família gostava muito dele, mas eu não estava apaixonada”, lembra.
Quando Ida, noiva, estava com 17 anos, foi fazer um tratamento odontológico, o que era comum, na época, antes do casamento. “Um dia eu estava na sala de espera do consultório, quando entraram várias moças bonitas, maquiadas. Eu, sempre querendo fazer amizade, comecei a conversar e elas disseram que ficariam um mês na cidade, pois eram do circo.”
Naquele momento, Ida relembrou os momentos de infância e perguntou sobre o palhaço Gira-Gira. Surpresa, elas informaram que seria o irmão delas e que estava na cidade. Dias depois, no mesmo consultório, estava ela aguardando sua consulta quando um desconhecido entrou. “Lembro exatamente como ele estava, todo de preto, camisa de linho, os sapatos brilhando. Eu nem dei bola, mas olhava de relance quando baixava a revista Cruzeiro”, diz.
Eles se encontraram outras vezes no mesmo consultório, foram se conhecendo e na mesma semana Ida terminou o noivado. “Meu noivo achou que eu estava doida, que deveriam consultar um psiquiatra”, diz. Mesmo com a torcida contra, pois muitas pessoas acreditavam que Wilson Nogueira não iria honrar com o casamento, pois era muito galanteador, Ida assumiu a paixão e preparou-se para o casamento, que marcou Barra Bonita, na época.
Vida sob a lona
“No começo, foi muito difícil. Eu era uma dondoca, não sabia lavar, passar, não tinha idéia do que seria minha vida. Eu chorava. Não sabia nada”, recorda. Mas com o tempo e a necessidade, Ida integrou-se à vida no circo, virou administradora, produtora e mãe. Suas filhas Guacira, 40 anos, e Anahi, 37 anos, nasceram e cresceram sob a lona e também mergulharam na vida circense.
“Teve uma época que estávamos em São Paulo, o Wilson trabalhava como diretor artístico em teatros. Ele era muito boêmio e muito enérgico. Foi quando ele resolveu montar o Circo Anahi. Viajamos muito. O sangue circense falou mais alto”, recorda.
Naquele tempo, há 25 anos, Ida cuidava dos vendedores e tinha sua fonte de renda. Ela também fazia várias guloseimas, maçãs-do-amor. “No circo, finalmente, aprendi a fazer as sombrinhas”, diz, com brilho nos olhos. Ela chegou até a comprar cadeiras e um caminhão com a renda de seus investimentos. Mas a vida no circo não foi nada fácil.
Depois, a família instalou-se em Bauru, onde por alguns anos se apresentou pelos bairros. “Quando a lona ficou velha e as dificuldades aumentaram. Tivemos que vender tudo. Foi muito sofrimento. Fomos despejados. O Wilson morreu de desgosto.”