Tribuna do Leitor

O preço de um homem


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O preço de um homem, quando ele o fixa, varia. Mas o que ele vende, se vende, não varia nunca. Preço? O preço de um homem é baixo quando expresso em milhões e alto se for o de ele conservar o respeito-próprio enquanto estiver sendo pago. Mas o que um homem pode vender de si dentre aquilo com que veio ao mundo? É sempre, invariavelmente, imutavelmente, inexoravelmente.. sua alma.

Acompanhado de si no cimo da torre do farol o homem cofiou a barba que não tinha, quase surpreendendo-se por ela não estar lá. Talvez deixasse crescer uma para percebê-la crescendo a fim de passar o tempo, que rastejava como um réptil sonolento e, assim, tornava os minutos em horas, as horas em dias, os dias em semanas e as semanas em anos, numa lentidão progressiva da vida que fazia da morte, um mito, do descanso eterno, uma utopia. Pois a vida do faroleiro era a materialização da monotonia, do não-acontecer, a confirmação de que nada acontece no universo quando se espera que aconteça.

Como ele sonhava com noites etílicas na cidade enlaçando cinturas finas precedentes de ancas largas e bamboleantes, culminando com o esquecimento dos ébrios que o arrestaria até que o sol retornasse ao mar na tarde do dia seguinte. Nas havia o mar... e os barcos... e sua missão de vigília interminável.

Por que continuar negando a si o que lhe estava ao alcance da mão estendida?

A porta, atrás de si, era enorme como nunca havia sido. E parecia crescer a cada batida de seu coração, que até então não batera nunca mais. Por trás da porta estava um mundo onde o tempo corria. Poderia passar por ela e, quando voltasse, nem um milésimo de segundo haveria passado. Poderia soltar a caneca, passar pela porta, viver, e voltar antes que o objeto tocasse o chão. E o melhor: ninguém jamais saberia... além de si mesmo, com quem teria que viver para sempre no cimo do farol, e isso o dissuadiu de pagar preço tão alto.

Eduardo Guimarães

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