Tribuna do Leitor

Culturas e desenraizamento


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Com as matérias “Culturas distantes ainda surpreendem apesar da tecnologia” (Luciana La Fortezza, 18/12/05) e “Culturas preservadas” (Adriana Fricelli, 19/12/05), o Jornal da Cidade trouxe este mês duas matérias sobre culturas e as incertezas e dificuldades enfrentadas por pessoas em localidades diferentes do seu local de origem e o seu conseqüente desenraizamento. Tentaremos, confrontando as matérias citadas, fazer uma analogia do envolvimento social presente.

Inicialmente, falando sobre cultura, Ortega y Gasset afirma: “O homem não tem natureza (biológica ou orgânica), ele tem história (cultural ou superorgânica)”. Já Theodosius Dobzhanski, em seu livro “Mankind Evolving” (O Homem em Evolução), propõe que o homem possui tanto natureza quanto história. Ele entende que “a evolução do homem não pode ser compreendida como um processo puramente biológico, nem pode ser convenientemente descrita como uma história da cultura.” Ela, a cultura, é inteiramente adquirida por aprendizado e imitação e transmitida inteiramente por ensino e preleção. (Por sinal, o Caderno “Ciências” do JC - 26/12/05, publica: “Segundo a “Revista Science”, a teoria da evolução é o fato científico do ano). Já a respeito de desenraizamento, citaremos o sociólogo e crítico literário Tzvetan Todorov, que em seu livro “L’homme Dépaysé” (O Homem Desenraizado) - fala da sua sensação de pertencer a duas culturas diferentes. Todorov se reporta à diáspora, mas o tema pode perfeitamente, por motivos outros, se ajustar à realidade brasileira tendo em vista nossa grande extensão territorial, com regiões e populações diferenciadas e, consequentemente, culturas diversificadas. Para o autor, quando a pessoa chega ao novo local, ocorre a “desculturação”, ou seja, a degradação da cultura de origem, que poderá ser compensada paulatinamente pela “aculturação” - aquisição progressiva de uma nova cultura. Com o passar do tempo, pode ocorrer a aquisição de um novo código, sem a perda do anterior - a transculturação (biculturalismo). Em sua opinião, fora de seu meio, a pessoa desenraizada sofre em um primeiro momento, pois é muito mais agradável viver entre os seus; mostra, no entanto, que ela pode tirar proveito dessa situação. “Aprende a não confundir o real com o ideal, o cultural com o natural e, superando o ressentimento pela hostilidade de seus anfitriões, descobre a tolerância, ao mesmo tempo que deflagra neles o processo de ‘estranhar-se’ e a compreensão de que somos todos híbridos”. Na matéria “Culturas preservadas” foi exposto, entre outros, o trabalho do Centro Cultural Yauaretê na adaptação de povos da região Norte do País quando em permanência temporária em nossa cidade, atenuando o choque das diferenças do seu local de origem (apego à região, alimentação e costumes) - situação específica do amazonense: quando fora de seu “habitat” natural, sente-se desconfortável, desenraizado de sua terra. Na outra reportagem, alusão ao “estranhamento” de uma mãe de família do interior cearense quando de sua curta temporada em Bauru em visita a um filho aqui residente. Nos dois casos, fica evidente que a ruptura do “modo de viver”, principalmente a permanência em local estranho, pode causar transtornos; transtornos estes que, mesmo que não constituam uma fatalidade, podem ser prevenidos ou atenuados com atitudes de recepção, amizade, fraternidade e hospitalidade dos moradores locais. Esses quatro itens podem e devem ser aplicados no dia a dia de nossa sociedade, facilitando a “quebra de gelo” e adaptação ao que chega: na escola, na redação dos órgãos de imprensa, na igreja, nos pontos de turismo e de chegada, nas associações e órgãos de classe, na comunidade dos bairros, enfim, no cotidiano. Cumprimentamos as jornalistas Luciana La Fortezza e Adriana Fricelli pelo espírito humanístico inserido nas reportagens.

Tito Pereira - CRO/DF-546

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