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Eu vi


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Eu vi a infância, a juventude e o ano 2005 com erros e acertos passarem como um raio. Eu vi a semente germinar, a criança nascer com os olhos arregalados de alegria, meiguice, de pavor. Eu vi o menino se entusiasmar com os primeiros ensinamentos. Eu vi a mãe, o pai, o irmão amando, ensinando.

Eu vi a criança puxando o paletó do político e gritando: ladrão, mentiroso! Eu vi o povo ser enganado por esse político.Eu vi este governo pregando ética e moral quando na oposição; hoje no poder parece preferir a prática da corrupção. Eu vi o governo FHC esquecendo o passado, pregando com arrogância ter sido melhor que o atual. Ele ainda não percebeu os estragos causados. Como justificar as escabrosas privatizações? O povo não consegue pagar o telefone, a energia elétrica, a escola, a saúde. E esse eminente sociólogo chamou os aposentados que levam trinta e cinco anos para se aposentar, de vagabundos.

Eu vi, então, o jovem em dúvida, sem eira nem beira, agressivo, descrente, rebelde, sem saber quem fala a verdade, sem saber em quem votar. Eu vi a geração “ponto com” sentir-se perdida, sem uma bússola que lhe indique o rumo a tomar. Essa é a conseqüência paradoxal da sobrecarga de informações. Eu vi a minha cidade, politicamente, mais tranqüila. Será mais humana se romper as barreiras da miséria e fazer chegar até os mais pobres aquilo que tem sido privilégio de alguns. A humanização e o progresso da cidade é um processo lento que reveste uma tendência histórica, que incomoda e acaba com os privilégios.

Eu vi os pichadores à vontade danificando prédios, residências, enquanto a cidade dorme. Eu vi o religioso conversando com Deus, e, na conversa com o Diabo, cometer o terrível pecado da pedofilia, esquecendo-se de que o próprio Cristo disse que, neste caso, seria melhor amarrar uma pedra no pescoço e atirar-se ao mar. Eu vi, na educação, professores desestimulados, sem dedicação e amor, sem salário justo, não reverter vigorosamente estas desconsiderações. Eu vi a imprensa, o quarto poder, agir com credibilidade ligada ao compromisso com a verdade, com a busca da imparcialidade, procurando impedir a confecção de uma enorme, decepcionante e frustrante pizza.

Eu vi os terremotos ceifando muitas vidas. Muitos ironicamente, puseram a culpa no Deus da vida e do amor. Não é Deus que faz isto, mas a Terra, a realidade por ela criada, é que, na sua busca de equilíbrio, faz tantos estragos. Às vezes, é a própria incapacidade humana que não faz tudo para que as tragédias sejam evitadas. Esses terremotos da natureza me fazem pensar que deveriam ser evitados a todo custo através da solidariedade de todos.

Eu vi o terremoto da fome matando milhões e milhões de pessoas, o terremoto do desemprego gerando desestabilização nas famílias, na sociedade que se torna fábrica de crimes e de marginalidade, o terremoto da corrupção de nossos políticos, da droga, da prostituição infantil, da violência... Eu vi a morte levando consigo, indiscriminadamente, amigos, parentes, papa, religiosos, políticos, ricos, pobres.

Eu vi a cidade vibrando com o Esporte Clube Noroeste pelo retorno à Primeira Divisão, de onde nunca deveria ter saído. O Palmeiras, por sua vez, classificou-se para Libertadores. Duas paixões esportivas herdadas de meu saudoso pai. Eu vi o adulto envelhecendo, perdendo interesse pela flor, pela poesia, pela música, pelo sonho, lutando apenas contra a morte.

Eu vi o Estatuto do Idoso desrespeitado por este governo, o seu criador: idosos nas filas do INSS, jogados nos corredores dos hospitais, humilhados por um salário de fome. Eu vi moribundos idosos agarrar-se a uma fé qualquer, negociando com Deus. Eu vi o homem ser eterno pela doação, pelo ensinamento, pela amizade, pelo amor, pela criança e pela esperança de um 2006 mais feliz.

Eu vi...

O autor, Gino Crês, é professor em Bauru

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