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Uma questão de tempo


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O primeiro rei de Roma, Rômulo, no ano em que fundou a cidade, organizou um calendário. O ano teria 304 dias, divididos em dez meses: martius, o primeiro mês, com 31 dias, seria consagrado a Marte, deus da guerra; aprillis (30 dias) foi consagrado a Apolo, deus da beleza; maius( 31 dias), dedicado a Júpiter; junius (30 dias), dedicado a Juno, esposa de Júpiter. Quintilis(31 dias), sextilis (30 dias), september(30 dias), october (31 dias), november (30 dias) e december (30 dias), do quinto ao décimo mês, completavam o calendário.

O problema é que a folhinha bolada por Rômulo não tinha base astronômica: os meses não se repetiam nas mesmas estações do ano, nem coincidiam com as fases da lua. O calendário de Rômulo, no final das contas, tinha pouquíssima utilidade. O sucessor de Rômulo, Numa Pumpílio, cria dois novos meses: Januarius, com 29 dias, fica sob a proteção de Janus, um deus que tinha duas faces (uma olha para o passado e a outra olha para o futuro), torna-se o primeiro mês do ano; Februarius (28 dias), é dedicado ao deus da purificação dos mortos, Februa. O ano fica com 355 dias, que é, aproximadamente, o tamanho do ano lunar (354 dias). Para compatibilizar ano lunar e ano solar, cria-se um 13º mês, Mercedonius, que tinha 22 ou 23 dias, e que aparecia no calendário a cada dois anos.

Os romanos foram vivendo sob o calendário de Numa Pumpílio que, se não era a coisa mais perfeita do mundo, era razoavelmente preciso. Só no ano 708 da fundação de Roma, um governante (no caso, Júlio César) decide chamar um astrônomo (Sosígenes) para fazer um calendário realmente sincronizado ao ano solar. Assim, os doze meses (com exceção de fevereiro) passam a ter 30 ou 31 dias; o início do ano passa do dia 1º de março para o dia 1º de janeiro; o mês quintilis passa a ser chamado de mês de Julho (e assim Júlio César humildemente se auto homenageia...); o ano passa a ter 365 dias. Como o ano solar tem aproximadamente 365 dias e um quarto, de quatro em quatro anos se adiciona um dia extra no mês de fevereiro. O governante que se segue a Júlio César se auto-intitulou Augusto, ou seja, “Divino”. E decidiu, também, fornecer seu nome adotivo para rebatizar o mês sextilis.

O calendário de Júlio César foi usado nos 1.600 anos seguintes. Com o passar dos séculos, surgiu um problema: o arredondamento da duração do ano solar (que em realidade tem 365 dias, 5 horas 48 minutos e 46 segundos), provocava uma divergência de 11 minutos e 14 segundos por ano. Em 1.600 anos, isso significava dez dias. Para resolver a diferença, o papa Gregório XIII, em 1582, ordena que a quinta-feira, dia 04 de outubro, seja sucedida pela sexta-feira, dia 15 de outubro! Para reduzir o erro do calendário juliano, Gregório XIII determina que deixam de ser bissextos os anos seculares (que terminam em dois zeros, ou seja, o último ano de cada século), exceto aqueles que são divisíveis por 400. Assim, o calendário gregoriano fica com um excesso de 0,0003 dias em relação ao ano solar (ou três dias a cada 10 mil anos). Por que Gregório XIII fez tanta questão em corrigir o calendário? Foi para a Igreja definir corretamente a data da Páscoa, a mais importante festa cristã. Para que a Páscoa jamais ocorra após o dia 25 de abril, definiu-se que ela seria comemorada no primeiro domingo de lua cheia do outono do hemisfério sul. Assim surgiu o nosso calendário atual. E é por isso que nosso calendário é chamado de “gregoriano”.

O autor, Ney Vilela, é historiador

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