A passagem de ano representa o fim de um ciclo e o início de outro. Esta transição é percebida pela maioria das pessoas de maneira positiva, como uma nova possibilidade de prosperar, de ser melhor ou de fazer as coisas de um modo diferente. Assim, para agradecer pelo ano que passou e pedir boa sorte para o ano que virá, todas as culturas, à sua maneira, realizam rituais de passagem.
Apesar das diferenças culturais e da forma como esta transição é comemorada serem bastante distintas, um aspecto é quase unânime: a grande maioria das festividades de final de ano converge para a gastronomia e para a mesa farta de alimentos.
De acordo com o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, esta tradição está historicamente associada a diversos fatores, entre eles, a sociabilidade - pois na ocasião diversas pessoas comem juntas -, para demonstrar posses e poder perante um convidado, ou, ainda, como forma de transformar a natureza em cultura, ou seja, comer os frutos conquistados com o esforço despendido durante o ano.
“Esta cultura da abastança ou da comilança no fim de um ciclo, como é o ano, vem do período pré-histórico, portanto são heranças culturais de longa dataâ€, explica.
Os japoneses, por exemplo, comem moti - um tipo de bolinho de arroz -, peixe, macarrão e tomam saquê. O moti e o saquê, que têm como matéria-prima o arroz, simbolizam o desejo de fartura, de boas colheitas e de oferenda aos deuses. O peixe, que representa saúde e vitalidade, tem seu simbolismo proveniente da própria vitalidade do animal, e o macarrão, por conta do próprio formato do alimento, significa longevidade.
“Mas podemos resumir, grosso modo, que a festa de passagem de ano para os japoneses representa um pedido de boas colheitas, em toda a abrangência que o termo pode trazerâ€, salienta Massaru Oghino, relações públicas do Templo Budista Nambei Honganji de Bauru.
Mesmo com a fartura de alimentos e também desejando um novo ano de fartura e prosperidade, a cultura judaica pede principalmente paz e harmonia. “Isso se dá pelo próprio histórico de guerras e conflitos que vive a região de Israelâ€, afirma Marcos Livtac, ex-presidente da Associação Luso-Brasileira de Bauru. Para os judeus, apenas a carne suína é banida da ceia de Ano Novo, assim como da cultura gastronômica judaica, pois eles acreditam que o porco é um animal sujo.
Outra cultura que dispensa a carne, apesar de não proibi-la, é a dos umbandistas. Com uma ceia também farta, mas de frutas, ervas e vegetais, os adeptos da umbanda decoram seus lares de branco e azul claro - cores da divindade Iemanjá -, acendem incensos e oram em reverência às divindades, de acordo com o mestre umbandista Rodrigo Queiroz. “Em 2006, a divindade predominante é Oxossi, portanto a cor verde também deve aparecer na decoração das casas. O planeta regente é Saturno, que promete um novo ano de crescimento e colheita dos frutos plantados em 2005â€, prevê.
Para além das tradições, da comilança e das previsões, ou mesmo para quem se diz contra tudo isto, a passagem de ano representa, no íntimo de cada pessoa, o desejo de deixar para trás os erros, as incertezas e as angústias, e poder, mesmo que num momento de festa, vislumbrar 365 dias de vida nova. E assim vão os ciclos, até que se acabe 2006 e venha o outro.