O dia de sol contrasta com os pesados portões de ferro, muros e grades que separam o complexo penitenciário de Bauru do mundo “aqui fora”. Mas a prática de uma arte marcial como taekwondo também parece não combinar com esse ambiente. Entretanto, foi lá dentro que o detento Fábio Alexandre Alves, 30 anos, descobriu que poderia sonhar com o dia em que irá representar a seleção brasileira nas paraolimpíadas.
Alves, aos 6 meses de idade, recebeu uma injeção na perna direita que dificultou o desenvolvimento da musculatura e o crescimento ósseo. O fato lhe acarretou uma diferença de quatro centímetros no comprimento e uma perna mais fina que a outra. Com a deficiência e a separação dos pais, Alves sentiu-se, muitas vezes, impedido de compartilhar das brincadeiras de infância.
Adolescente rebelde, o que lhe rendeu três anos de Febem, foi na Penitenciária 1, em Bauru, que encontrou o equilíbrio no esporte olímpico taekwondo. Preso há dez anos por homicídio, enfrentou o clima tenso das unidades penitenciárias, os vícios e a distância da família, que mora em São José do Rio Preto, na dedicação ao esporte.
Agora, ao conquistar o primeiro dan do cinto negro, Alves sonha longe: “Quero ser um atleta nas Paraolimpíadas de Pequim, em 2008”. Para isso, ele conta com apoios constantes que vêm de outras cidades e até de “além mar”. Um dos maiores incentivadores do atleta é o mestre português António José da Silva Marques Medeiros, 37 anos.
Formado em educação física, Tozé, como é conhecido, entrou na vida de Alves por acaso. “Ele estava detido e alguém lhe ofereceu um livro sobre taekwondo escrito aqui, em Portugal, por mim. Dedicou-se de corpo e alma à aprendizagem da arte marcial, absorvendo os seus princípios, valores e técnicas, e adquiriu, com isso, uma grande autodisciplina”, conta Tozé, em entrevista por e-mail.
Ao longo desse processo, Fábio Alves contou também com a ajuda do médico psiquiatra José Fraguas Netto, de Araçatuba, que há sete anos conhece o detento e lhe auxilia no desenvolvimento social e esportivo. “A força de vontade de Fábio é incrível. Com o consentimento da diretoria da P1, em Bauru, tem tido vários avanços”, diz o médico, que visita Fábio com freqüência.
Concentração
Fábio Alexandre Alves vive no ambiente prisional, local que pretende deixar antes de 2008, com a redução da pena a partir de seu tempo de trabalho. Lá, ele concluiu os estudos, dedicou-se ao esporte e não teve nenhuma falta por agressão.
Mas, para chegar ao equilíbrio exigido para a prática do taekwondo, Alves superou limites físicos e psicológicos. “A influência dentro da prisão é muito ruim. Um ambiente com sentimentos de maldade, vingança e ódio. Achei difícil me adaptar às outras pessoas e comecei a me adaptar a mim mesmo”, diz Fábio.
Ele passa o dia lendo e praticando pelo menos três horas de taekwondo. “O preparo exige muito do corpo. No começo, foi difícil porque tive que parar com os vícios, o mais difícil foi o cigarro. Bebi até água com fumo”, recorda. Fábio também adaptou as técnicas esportivas às suas limitações físicas, pois o taekwondo é considerado “a arte de lutar com os pés e as mãos”.
Paraolimpíadas
A história do desporto para pessoas portadoras de deficiência teve início na cidade de Aylesbury, na Inglaterra. A pedido do governo britânico, o neurologista Ludwig Guttmann, que fugira da perseguição aos judeus na Alemanha nazista, criou o Centro Nacional de Lesionados Medulares do Hospital de Stoke Mandeville, destinado a tratar soldados do exército inglês feridos na Segunda Guerra Mundial.
Embora já se promovesse atividades esportivas para portadores de deficiência, principalmente na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha, foi em 1948 que este conceito ganhou caráter oficial, com a realização dos Jogos de Stoke Mandeville.
O Brasil
Desde que o País mandou a sua primeira representação aos Jogos Paraolímpicos, em 1972, na cidade de Heidelberg, na Alemanha, a presença brasileira nestas competições vem se ampliando. A última edição ocorreu em 2004, em Atenas. Os próximos Jogos Paraolímpicos serão em 2008, em Pequim, capital da China. O taekwondo ainda não faz parte dos esportes paraolímpicos, mas já participou, em Atenas, como modalidade de exibição.