Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) nasceu em terras de Jatobá, filho do comerciante português João Manuel Gonçalves Dias e de Vicência Ferreira, filha de negro e índia. Bastardo, veria, mais tarde, seu sonho de amor por Ana Amélia Ferreira do Vale não se concretizar, porque não ficaria bem entregar uma menina tão linda a um mestiço que trazia no sangue a força de três raças: branca, índia e negra. Não fosse o pai, abastado comerciante, Gonçalves Dias seria, por certo, igual a milhares de brasileiros plenos de potencialidades, mas colocados à margem da sociedade. Por falta de recursos. Por descaso de nossas autoridades.
Pensamentos assim ocorrem-me neste período de férias escolares. Há onze anos, a 2 de janeiro de 1995, enviei uma carta à professora. Rose Neubauer, então secretária da Educação do Estado de São Paulo. Dizia-lhe, então, não entender por que o ano escolar teria que coincidir com o ano civil, elencando a grande evasão escolar que coincide com a procura de mão-de-obra por ocasião do corte da cana; da colheita do algodão; da colheita do café, variando de região para região. Além do que professor de escola pública e aluno não gozam, mas sofrem férias!
Sua excelência respondeu-me no mês seguinte: 03/2/1995, Carta GS. 12/95, adiantando: “Esta administração concorda plenamente que as escolas carecem de soluções que atendam suas características locais, como é o caso do calendário escolar de acordo com as necessidades das crianças do campo que ajudam nas colheitas.” E conclui: “... estudos estão sendo realizados visando oferecer às escolas maior autonomia financeira.”
Há onze anos! “Estudos estão sendo realizados”... Famílias abastadas, deliciam-se com as nevadas de além-mar. E os estudos estão sendo feitos... Passo às mãos de uma profissional que cursará o primeiro ano de faculdade um pequeno poema de minha autoria. Peço-lhe que o leia. Fita-me como que assustada. Os lábios, trêmulos; olhos atônitos. Pergunto-lhe:
- Não lhe agradou o poema?
- É que não sei ler em voz alta! Faz-me sentir mal!
Não sabe ler expressivamente. Pergunto-me: saberia ler? Acredito que não.
Gonçalves Dias, aos 15 anos, fora enviado a Portugal. Aos 17 anos matricula-se na Universidade. Por isso, só por isso, podemos ler I - Juca-Pirama e Canção do Exílio, em que mostra toda a capacidade poética, não usando um só adjetivo em todo o poema!
Álvaro B. Pontes