Moscou - A Rússia se comprometeu ontem a normalizar o fornecimento de gás natural a seus clientes europeus. Alexander Medvedev, vice-presidente da estatal russa do setor, a Gazprom, disse que passaria a injetar um fluxo suplementar de 95 milhões de metros cúbicos daquele combustível no gasoduto que atravessa o território da Ucrânia.
O cumprimento da promessa poria fim ao nervosismo político e do mercado energético, provocado pela decisão do presidente Vladimir Putin de cortar o suprimento de gás aos ucranianos. Com o fechamento das torneiras, outros países que dependem do gasoduto sofreram uma queda na entrega de 14% a 50%. A circulação de gás pela Europa diminuiu 30%, informou ontem a empresa eslovaca de gás SPP.
A situação caótica foi criada pelo fracasso, no sábado, das negociações para a definição de novas tarifas para o mercado ucraniano. A estatal Gazprom queria que a Ucrânia pagasse US$ 230 por 1.000 metros cúbicos, em lugar dos US$ 50 que vinham sendo cobrados.
A empresa acusou ontem a Ucrânia de ter no domingo retirado ilegalmente do gasoduto que atravessa seu território 100 milhões de metros cúbicos, acusação que Kiev qualificou de improcedente.
A intenção de normalizar a situação com outros clientes também foi revelada ontem, na Hungria, pelo ministro da Economia e Transporte, Janos Koka. Ele disse que a Rússia se comprometeu “a voltar ao nível anterior de 100% do abastecimento”.
O governo húngaro acerta sua posição com o eslovaco, com o checo e com o polonês, para que todos cheguem amanhã a Bruxelas com uma posição comum no encontro da União Européia que tratará do problema.
O ministro alemão da Economia, Michael Glos, disse que a Rússia “deveria agir com responsabilidade”, na declaração mais crítica à decisão de Putin. Ele também afirmou que a Alemanha apenas fecharia novos contratos com a Rússia caso tivesse a certeza de que não sofreria interrupções no fluxo de entrega.
Os alemães são os maiores importadores de gás russo (36 bilhões de metros cúbicos, em 2004), que por sua vez representa cerca de um quarto do consumo daquele combustível dentro da Europa.
As duas maiores empresas distribuidoras no mercado alemão, a Wintershall e a Ruhrgas, disseram registrar uma queda na pressão do gás vindo da Rússia, mas não quantificaram essa perda. Os alemães têm estoque para 75 dias.
Frio
A situação é mais delicada na Sérvia, que não dispõe de tanques de armazenamento e cujo fornecimento foi cortado pela metade. O vice-presidente da Srbija Gas, Aleksandar Kosadinovic, anunciou de forma indireta o racionamento, ao afirmar que a prioridade de consumo já estava sendo dada a hospitais e escolas.
Nesse e em outros países a situação é delicada em razão do papel do gás na calefação de domicílios e locais públicos, num inverno que tem sido particularmente duro. Em Kiev, Capital da Ucrânia, a temperatura mais baixa foi ontem de 6ºC negativos. Em Viena, a mínima foi de 5ºC negativos.
A Polônia, também dependente do gás russo, recebeu ontem 14% a menos do combustível, bem mais que o corte da metade registrado no domingo. Seu ministro da Economia disse que o país tem estoques para sete ou oito dias.
A Moldávia, pequena ex-República soviética, enfrenta problema semelhante ao da Ucrânia. Os russos querem que o gás que lhe é fornecido passe de US$ 80 a US$ 160 por 100 mil metros cúbicos.
O presidente Vladimir Voronin convocou reunião de emergência do governo. A Rússia também interrompeu o fornecimento àquele país. A Romênia, com um corte de 30% no abastecimento, acredita que seus estoques não estejam comprometidos, já que desde domingo não se registram temperaturas tão baixas quanto as da semana passada.
Na Áustria, o conglomerado energético OMV disse estar recebendo um terço de gás a menos pelo gasoduto ucraniano. A gigante italiana de gás ENI tem outras fontes de fornecimento. Mesmo assim, informou ontem que está recebendo 24% a menos do combustível russo. Na Grécia, Turquia e República Checa o fluxo sofreu variações insignificantes.
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Tensão política
Kiev - O governo da Ucrânia acusa o governo russo de tentar retaliar o novo governo do país, mais inclinado às relações diplomáticas com o Ocidente - mais notadamente os EUA - do que com a Rússia. Em 2004, o candidato à Presidência do país apoiado pelo governo russo perdeu as eleições após acusações de fraudes eleitorais que envolviam mais de 1 milhão de votos.
Viktor Yushchenko, o líder da oposição, e que conduziu a Ucrânia para um movimento social que ficou conhecido como a “Revolução Laranja” foi eleito presidente do país, e tem cumprido seu programa de governo no que tange à integração com o Ocidente: atualmente, a Ucrânia é candidata a uma vaga na União Européia (UE) e também na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Os russos dizem que o aumento do preço no gás ocorre porque o país quer ajustar os preços do produto aos preços do mercado.