Muita gente, homens e mulheres, sofre quando tem que comprar uma roupa ou um calçado. É que as confecções e fábricas de calçados, procurando seguir a moda, passam a produzir artigos como se todas as pessoas tivessem o mesmo gosto, as mesmas preferências e as mesmas condições físicas e econômicas. As pesquisas em que se baseiam indicam tendências, mas tendência não quer dizer unanimidade. Elas refletem o gosto de um segmento da sociedade e não de toda a sociedade. Há, de fato, muitos que gostam e podem seguir a moda, mas também há os que gostariam mas não podem e há, ainda, e não são poucos, os que preferem o costume tradicional.
Fátima Whitaker, brasileira naturalizada americana, com diploma em moda no Studio Berçot, de Paris, consultora que atende grandes redes varejistas como a Renner (Brasil), JC Penney e Macy’s (EUA), La Redoute e Vivarte (França), em reportagem de Exame diz que a moda “é um mundo fútil, de total estupidez, que os desfiles nada mais significam e que os consumidores, para os estilistas é o que menos interessa”. Segundo ela, sua consultoria prefere clicar os consumidores nos locais de compra do que seguir pesquisas. “O pressuposto é que pesquisas demográficas e estatísticas não flagram as preferências de estilos dos clientes. Uma advogada de 24 anos, por exemplo, que trabalha num banco ou num escritório de advocacia formal, pode se vestir como uma mulher de 45 anos para trabalhar. É preciso entender que o consumidor hoje escolhe quem ele quer ser. A grande sacada de uma marca, portanto, é descobrir que perfil de pessoa está servindo.”
À opinião da consultora podemos acrescentar as situações que observamos no dia-a-dia. São comuns os casos de pessoas que percorrem lojas e mais lojas em busca de uma roupa ou de um calçado e não encontram do seu gosto ou que sirva às suas condições físicas ou econômicas. Há uma diversidade de tipos: altos, baixos, magros, gordos, adolescentes, jovens, moços, de meia idade, idosos, de anatomia de manequim ou de corpo de difícil modelagem e as confecções têm os mesmos modelos, variando apenas no tamanho. Há mulheres que não podem usar salto alto ou não gostam das solas tipo plataforma; há homens de pés de peito alto; há pessoas com varizes, com pés doloridos ou que incham, e os calçados todos seguem a moda, indiferentes a essas peculiaridades.
Confecções e calçados que podem atender aos casos que não se enquadram na moda existem, mas são poucos e geralmente separados de forma discriminatória. Além de, na maioria, pecarem pelo estilo e pela qualidade, são apresentados em lugares de pouca visibilidade nas vitrines ou em lojas que, embora bem intencionadas, têm uma conotação pejorativa, como as ‘loja para gordos’. Cliente tanto é o que gosta de andar na moda como o que não gosta ou não pode. Venderiam mais se tivessem a preocupação de poderem atender a todos em vez de ficarem preocupadas apenas em seguir a moda.
Na orientação às empresas, a consultora recomenda que se obedeça aos estilos de vida, e se encarregados de compras e gerentes não passarem a enxergar os clientes devem ser demitidos. Foi o que aconteceu na Lojas Renner, onde metade dos 50 gerentes de compras foi substituída por não entender ou não aceitar a mudança.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru