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Conceitos arquitetônicos e o futuro


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Cinco anos após a virada do milênio, me senti neste início de ano como se ainda estivesse no século XX, ao me deparar com a foto de capa do JC desta última terça-feira, dia 3 de janeiro de 2006, trazendo a imagem do atual secretário de Planejamento do município, com um mapa desbotado e provavelmente embolorado pelos anos de mofo passados nos arquivos de aço da Prefeitura. A imagem completava o cenário do que parece ser o assunto deste início de ano na cidade, ou seja, a paternidade de um projeto similar ao Parque do Ibirapuera no coração norte da cidade. E olha que a iniciativa está sendo disputada com afinco, através de datas, mapas e números por personalidades históricas de Bauru.

O que mais chama a atenção nesta discussão, que em tese é interessante para não dizer preocupante, é a mesmice dos conceitos arquitetônicos urbanóides, que enxergam as cidades recheadas de concretos, ruas e avenidas cercadas por pequenas porções de espaços verdes, que servem apenas como enfeites para a cobertura do bolo, ou quem sabe de mais uma bomba-relógio, como tantas outras que por visões ultrapassadas expuseram a população aos mais absurdos riscos. Poderia citar aqui tantas obras que, seguindo uma metodologia convencionada pela cidade de São Paulo da década de 40, trouxeram conseqüências irreversíveis para as cidades onde foram implantadas. Vou destacar apenas a avenida Nações Unidas como um dos exemplos clássicos da inconseqüência engenhosa dos processos de urbanização a qualquer custo, que agora, depois de um período de glamour, agoniza impotente à espera de milhões de reais para equacionar seus problemas históricos estruturais ou ser salva por idéias estapafúrdias de transformar o “Vitória Régia”, a única área verde desta avenida, em um grande piscinão de contenção de águas pluviais. Imaginava que após a virada do milênio Bauru estivesse em pleno processo de discussão de novas concepções de desenvolvimento, de novos planos urbanísticos fundamentados pelas inovações tecnológicas mundiais, que integrasse a cidade não só a uma dinâmica de crescimento socioeconômica regional, mas que refletisse em melhorias concretas para a qualidade de vida da cidade. Que nada, os anos se passaram e o município continua acorrentado aos armários de aço, aos mapas de papel, às disputas provincianas e às decisões políticas alicerçadas apenas pela vontade de meia dúzia de técnocratas. Se o prolongamento das Nações Unidas Norte é prioritário, por que não começar a obra pela recuperação socioambiental da área verde do córrego da Água do Castelo, que se encontra relegada ao descaso, com gigantescas erosões, lixo, entulho, além de estar sendo invadida por construções ilegais?

Quando o município vai acordar para uma nova visão de cidade? Qual a dificuldade da Prefeitura em inverter a escala de prioridades das obras públicas, de priorizar a qualidade de vida das pessoas, de dialogar democraticamente com outras tendências e de respeitar a opinião da sociedade? Se neste episódio do projeto deste Parque a Prefeitura simplesmente invertesse a prioridade, idealizando a obra pela recuperação do fundo de vale, revitalização do córrego, e socializando do espaço público, certamente o custo financeiro do empreendimento seria infinitamente inferior ao proclamado, além, é claro, do benefício que a recuperação da área traria em qualidade de vida para a população do entorno e de toda a cidade. Vale destacar, também, que apenas enxergar o desenvolvimento sob uma nova óptica não modificaria o quadro atual de imobilidade gerencial da Prefeitura, visto que todas as ferramentas e os mecanismos estratégicos para o planejamento da cidade e a prospecção de novos cenários estão ultrapassados, e precisam ser repensados imediatamente, antes que mais mapas embolorados sejam desenterrados dos sepulcros envelhecidos do Palácio das Cerejeiras. O século XXI é uma realidade, e precisa ser enxergado e vivenciado por todos. Discussões de procedimentos históricos podem ser interessantes, folclóricas e até mesmo engraçadas, mas a cidade necessita com urgência de ações práticas que realinhe seus anseios e sonhos aos novos paradigmas, senão corremos o risco de ver o futuro passar outra vez pelas janelas.

O autor, Clodoaldo Armando Gazzetta, é professor, biólogo e consultor de projetos sócioambientais

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