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Renovação política


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O ano de 2006 promete renovação no cenário político brasileiro. A população ficou muito mais cética em relação aos políticos e o clamor pela ética na vida pública cresce cada vez mais. Os governos anteriores protelaram a imprescindível reforma política, causa talvez das condições que permitiram a trapalhada imoral da última campanha presidencial e a forma como o PT lidou com a questão financeira, numa embolação sem precedentes em nossa história, com um nível de corrupção que se esperava diminuir, tendo em vista que a principal bandeira do PT era justamente a ética na gestão pública. O PT diz que houve uma onda de denuncismo sem provas concretas contra esse ou aquele parlamentar, mas ainda pairam todas as dúvidas. O certo é que um volume muito alto de dinheiro transitou de forma ilícita pelos corredores de Brasília, especialmente dentro do PT, que não conseguiu justificar como uma dinheirama tão grande não foi contabilizada devidamente.

A denúncia mais grave foi a de que houve o mensalão (adicional entregue aos parlamentares para garantir votações favoráveis ao governo) e, diante disso, uma das principais bandeiras políticas do PT (a defesa da ética na gestão pública) foi por água abaixo. O PT termina 2005 descredibilizado, com a estrela partida, quase esfrangalhada. Mesmo assim, Lula acena com a possibilidade de se candidatar à reeleição, pois, para ele, na lógica de Pangloss, o presidente da República vive no melhor dos mundos possíveis. Na última reunião ministerial, se apegou aos números para provar que seu governo fez muito mais que o governo anterior, insistindo na tecla de que a economia vai bem.

A queda de José Genoíno da presidência do PT e a cassação do deputado federal José Dirceu (o ex todo poderoso ministro da Casa Civil e braço direito de Lula) foram duros golpes, sem contar a presença do nome do ex-presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, na famigerada lista de beneficiários do mensalão, o que foi altamente constrangedor. As eleições de outubro vão mostrar a avaliação que o povo brasileiro fez dessa vergonhosa pantomima.

Além disso, o Congresso Nacional viveu, em 2005, outra aventura surrealista, de vexame nacional. Os nobres deputados resolveram eleger para presidir a Casa, o rei do baixo clero, o deputado Severino Cavalcanti, que não agüentou a pressão da imprensa, que desde o primeiro dia fez o povo brasileiro ver o equívoco da escolha, comprovado com a denúncia do mensalinho. Foi patética a passagem e a performance de Severino Cavalcanti, enquanto Lula estava acossado pelas denúncias do mensalão. Os críticos internacionais disseram que foram compensados pela falta de romances de ficção com qualidade que hoje marca o mercado editorial do mundo. O reality show das CPIs do Brasil em 2005 supriram a carência de ficção. A realidade chegou, incluisve, a superar a ficção. Quem poderia prever um roteiro tão rico em imaginação como o apresentado neste ano, para os registros da história brasileira? Muitos analistas chegaram a dizer que a diferença entre a crise política brasileira e a do Exterior é que ao menos eles conseguiram se divertir com a patetice dos protagonistas da crise no Brasil.

Torçamos para que realmente haja uma renovação e que não volte a se repetir lá fora a velha expressão de que o Brasil não é um país sério. Nós, brasileiros, sabemos que podemos construir uma grande Nação, baseada na ética, na justiça e na solidariedade. E podemos expressar esta nossa esperança nas urnas de 2006.

O autor, Valmor Bolan, é doutor em sociologia e reitor da Universidade Guarulhos

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