Tribuna do Leitor

Aumento do álcool


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Meu amigo Mário Cândido mandou carta ao JC, publicada nesta coluna, bradando contra o aumento do preço do álcool e um suposto conluio de usineiros. Esta reclamação padece de falta de fundamento econômico, como espero demonstrar a seguir. A economia de mercado, caracterizada por vários produtores e vários consumidores, está para a economia assim como a democracia está para a política: está longe de ser perfeita, mas não inventaram nada melhor.

Com mais de 450 produtores só na região Sudeste e milhares de consumidores, o mercado de álcool pode ser considerado um mercado de livre concorrência. A alternativa de concluio está descartada. O Grupo Cosan, maior processador de cana do Brasil, que recentemente abriu capital na bolsa, processará, aproximadamente, 7% da cana a ser esmagada no Brasil em 2006. Aliás, aqueles que acharem que os usineiros podem auferir lucros extraordinários por causa de concluios, podem comprar ações da Cosan na bolsa e lucrar também.

Em um mercado de livre concorrência, os produtores tentam vender pelo preço mais alto que podem e os vendedores tentam comprar pelo preço mais barato que podem. É simples assim. Meu amigo Mário, apreciador de carros, ao trocar o seu carro usado por um novo, seria ingênuo se achasse que o vendedor iria deixar de vender mais caro para um terceiro para vender mais barato para ele, Mário, por conta da amizade, simpatia ou coisa que o valha.

Da mesma forma, acho que ele - Mário - não iria entregar o seu carro usado por um preço inferior ao que conseguiria no mercado apenas por estar vendendo para um amigo. Essas são as leis do mercado em um exemplo do cotidiano. Com o petróleo caro e a gasolina cara, o álcool teve sua demanda aumentada substancialmente, tanto no mercado interno quanto no mercado externo. Como as decisões de aumento na produção requerem antecedência de, no mínimo, um ano - temos de plantar a cana e esperar ela crescer - temos aumento de preço no curto prazo, aumento de oferta no médio prazo e perspectivas de diminuição de preço no longo prazo. Esta é a mecânica desses mercados.

Se o preço subiu é porque havia mais compradores que vendedores e se o preço cair é por que a situação se inverteu. E vai inverter, acreditem. A maior garantia de preço baixo amanhã é o preço alto hoje.

O álcool e o açúcar, mercadoria ao qual está atrelado, são cíclicos em questão de preço como todas as outras mercadorias, principalmente as agrícolas. A convocação do meu amigo Mário ao boicote ao álcool por parte dos consumidores tem dois cenários possíveis: 1- Se o álcool já subiu em demasia, ela é desnecessária. 2- Se o álcool ainda não subiu em demasia, ela é inócua. De qualquer forma, sob o ponto de vista de funcionamento dos mercados, ela não faz muito sentido.

Roberto Salles Zancaner

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