Ser

Inclusão profissional

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Mais do que uma chance de emprego, uma oportunidade para desenvolver a comunicação e integrar-se à sociedade. É com esse pensamento que Elisângela Silva Celestino, 20 anos, Luciana de Jesus Xavier, 22 anos, Oneide Soares dos Santos, 24 anos, e Vivian Silva de Jesus, 27 anos - todas deficientes auditivas - avaliam suas experiências no mercado de trabalho.

Há cerca de um ano, elas fazem parte do quadro de funcionários do McDonald’s e Quality Service, empresas do setor alimentício e prestação de serviços, respectivamente. O fato ocorreu graças a um programa de educação profissional desenvolvido pelo Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (NIRH), órgão vinculado ao Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP, o Centrinho.

O programa busca favorecer a inserção dos portadores de deficiência auditiva no mercado de trabalho de forma eficaz, explica Oleana Maciel de Andrade, psicóloga do NIRH. “Inicialmente nós realizamos uma avaliação e triagem dos usuários, além de um curso preparatório no qual passamos informações sobre hábitos e atitudes no trabalho e questões relacionadas aos direitos, deveres e cidadania”, detalha.

Além do programa educacional, para estimular a contratação dos deficientes, o NIRH criou uma parceria entre o Centrinho, através da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf), e empresas de Bauru e região.

A coordenadora do núcleo, Maria José Monteiro Benjamin Buffa, explica que o programa oferece aos empresários a possibilidade de manter o candidato em período de experiência de três meses dentro da empresa. Enquanto ele está em treinamento, recebe uma ajuda de custo da Funcraf, que é de 80% do salário mínimo.

“A empresa abre espaço para o deficiente e não tem gasto nenhum. Se houver interesse, ela o contrata”, diz Buffa. Além disso, a empresa recebe assessoria da equipe de profissionais do NIRH, formada por assistentes sociais, psicólogos e instrutor de libras. Somando-se ao Sistema de Reserva Legal de cotas - implantado no Brasil para garantir vagas para deficientes nas empresas – o programa é mais uma alternativa para facilitar a inserção dos deficientes auditivos no mercado de trabalho.

“Nosso objetivo é favorecer a inserção social do deficiente, capacitando-o a manter e obter um emprego, bem como promover entre deficientes e pessoas ouvintes a compreensão das relações sociais no trabalho”, aponta Andrade.

Se depender do empenho dos empresários e profissionais do NIRH, esse cenário só tende a melhorar. De acordo com Buffa, em 2004, 18 usuários do programa foram contratados e somente no ano passado, esse número subiu para 28.

Em março do ano passado, Luciana de Jesus Xavier, 22 anos, passou a integrar o quadro de funcionários da prestadora de serviços Quality Service. Atualmente trabalha no setor de limpeza do Centrinho. Ela conta que o emprego acrescentou mais experiência e amadurecimento. “Gosto muito de trabalhar. Conheci diversos locais e pessoas diferentes”, diz ela.

“No começo, as pessoas ouvintes me ajudaram bastante. Foi um pouco diferente do que eu estava acostumada no NIRH porque encontrei pessoas de todo tipo: as que estavam sempre sorrindo e outras mais bravas”, revela Xavier.

Desenvolvimento pessoal, independência e maior integração social fazem parte da lista de benefícios de Vivian Silva de Jesus, 27 anos, e Oneide Soares dos Santos, 24 anos, também contratadas pela Quality Service.

Santos, que já trabalhou no setor de produção da J.Shayeb, conta que utiliza recursos diferenciados para se comunicar com as pessoas ouvintes. “Encontro mais dificuldades em lojas e supermercados, mas quando as pessoas não entendem, procuro usar o português escrevendo o que quero falar no papel”, diz ela, que está grávida de 4 meses.

Casada com um deficiente auditivo e mãe de um menino de 6 e uma menina de 2 anos (ambos ouvintes), Jesus conta com o apoio dos filhos e também da sogra no dia-a-dia. “Às vezes, quando o telefone toca, meu filho mais velho atende e me dá o recado. E quando a pequena chora, ele me avisa”, conta ela, que também espera um bebê.

Devido às dificuldades de linguagem, Xavier foi estimulada ainda mais a se integrar à sociedade. Está tentando ensinar alguns itens básicos da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para colegas de trabalho e também aprimorar sua comunicação com familiares.

E as pessoas que estão ao seu redor também se esforçam para aprender, caso de Juliana Nascimento Silva, que trabalha no mesmo setor de Xavier. “Ainda não sei falar Libras, mas aos poucos estou aprendendo algumas coisas. Sou bem próxima da Luciana e nossa comunicação é natural”, conta ela.

Escolaridade

Na opinião de Andrade, a regulamentação da Lei de Libras feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro – que prevê a formação de professores e intérpretes bilingües vai favorecer a inserção social do deficiente auditivo.

“É um passo muito importante para a escolaridade e desenvolvimento dos deficientes. Eles precisam ter essa oportunidade, ter um instrutor e intérprete dentro da sala de aula. Isso vai facilitar o aprendizado e evitar que ele fique isolado. Acho até que as crianças ouvintes, tendo contato com as portadoras de deficiência auditiva, vão aprender com eles”, avalia a psicóloga.

O acesso à escolaridade é um dos principais problemas enfrentados pelos deficientes auditivos, aponta Buffa. “O surdo tem muita dificuldade para escrever porque pensa em Libras e não em língua portuguesa escrita. A barreira começa na comunicação e depois na escola porque se ele não tem escolaridade, não tem emprego.”.

Sabendo disso, Xavier inclui o estudo como uma das prioridades de sua vida. Ano que vem, iniciará o primeiro colegial. Elisângela Celestino, atendente da lanchonete Mc Donald’s também cursará o mesmo ano de Luciana.

Feliz com a oportunidade, Celestino contou com a receptividade dos colegas quando começou a trabalhar. “As pessoas me ajudaram bastante”, conta ela, que ensinou a linguagem de sinais para a companheira de profissão, Ana Cristina Sanches.

Para ela, o emprego proporcionou-lhe melhores condições de vida. “Ajudo minha família com o dinheiro que recebo, ajudo a pagar a conta de luz e da água e comprar comida. Minha família também me valoriza mais”, conta.

A valorização da auto-estima é outro ponto positivo, destaca Andrade. “O trabalho tem um significado para todos, mas para o surdo em especial porque há um aumento grande da auto-estima e auto-imagem. Eles podem comprar, ter seu próprio dinheiro e ampliar contato com outras pessoas e com o mundo ouvinte”, observa.

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