Ocupa espaços generosos na mídia a incerteza do retorno à chefia do governo de Israel do primeiro-ministro Ariel Sharon, dada a sua condição de saúde. As circunstâncias vividas como secretário da Agricultura e interino da Secretaria da Indústria e Comércio do Estado de São Paulo levou-me, em 1988, a Israel, para conhecer sua irrigação por gotejamento (novidade na época), a produção de leite controlada por programa com-putadorizado, fazendas de camarão, crocodilo, cultivo de flores e frutas. Tudo isso no deserto, graças à água do rio Jordão, um rio Batalha melhorado.
O governo israelense era Trabalhista (centro-esquerda), sob a liderança de Shimon Peres, à época principal figura da política israelense, hoje premiado com o Nobel da Paz. Com ele teríamos o encontro mais importante, porém, o que marcaria a viagem da comitiva formada por quatro secretários do governo paulista e alguns empresários seria o encontro com o ministro da Indústria e Comércio de Israel. Orientados pelo Itamaraty e pelo cônsul de Israel em São Paulo, Tiv Shazan, decidimos que, conforme o assunto, um secretário usaria da palavra saudando o acontecimento. Coube-me fazer a saudação no encontro com o ministro da Indústria e Comércio. Porém, antes que pudesse fazê-lo, o ministro tomou a palavra e iniciou um falatório que levou o intérprete a demorar algum tempo para exercer sua função. O jeito de falar e a reação dos que nos acompanhavam e entendiam o hebraico, permitiu antever que boa coisa não viria da boca do intérprete. Estávamos certos. O ministro desancou o Brasil pela sua relação de comércio, em especial o de armas, com o Iraque. Mal-estar geral e todos esperando minha palavra de saudação. Não tive dúvidas, me senti um brasileiro na defesa da honra da pátria, calcei as chuteiras e fui à luta.
Com a educação possível para a ocasião, observei que não estávamos ali para ouvir agressões à nossa soberania e que não tínhamos o costume da ingerência em assuntos internos de outros países. Da mesma forma, jamais iríamos questionar o envolvimento de Israel no episódio Irã-Contras (escândalo da época relativo a invasão do Irã por forças norte-americanas para resgatar reféns na embaixada dos EUA, em Teerã). O intérprete evitou traduzir, mas o ministro percebeu que a resposta foi dura. Questionou o funcionário e exigiu a tradução. Ouvida a réplica, levantou e bufou. Sentou e começou a falar dos assuntos que ali fomos tratar como se nada tivesse acontecido. À saída cumprimentou a todos e se recolheu ao gabinete. À porta do prédio, comecei a receber cumprimentos pela minha postura e aí fui saber que tinha enfrentado o temido general que comandou o massacre nos acampamentos de Sabra e Shatila. Hoje, a seu modo, buscava a paz entre judeus e palestinos. Não sei se terá nova chance.
O autor, Antonio Tidei de Lima, é engenheiro