Articulistas

Real vocação do ensino superior


| Tempo de leitura: 3 min

Dados divulgados recentemente pelo IBGE apontam um crescimento significativo de ingressos no ensino superior no Brasil, acentuado com a abertura de novas faculdades e universidades privadas em todo território nacional. Porém, tais dados nos impulsionam a perguntar: que tipo de formação está sendo oferecida nestas instituições? O que e para quem se produz realmente dentro delas? A vocação primordial do ensino superior é a formação integral do ser humano, partindo da abordagem básica – língua portuguesa, literatura, filosofia, arte, antropologia, ciências da religião – até a abordagem específica de cada curso. Independente de qual seja a especialidade, o ensino superior tem que necessariamente priorizar estes elementos. Lembrando sempre que o acadêmico hoje formando amanhã estará lidando com pessoas, seja direta ou indiretamente, o que requer agudo conhecimento, por parte deste profissional, das infinitas possibilidades que circundam o ser humano e a dinamicidade da sociedade.

A autoridade que um profissional tem em relação às pessoas ou situações que estão sobre sua responsabilidade é algo significativo, que se não bem administrada pode causar sérios riscos aos indivíduos. Pois, uma palavra mal colocada ou um gesto mal feito por parte de um péssimo profissional, pode destruir a vida e as esperanças de uma pessoa para sempre. Isto por si só é motivo suficiente para não oferecermos um ensino mediano e insuficiente em nossas instituições de ensino superior. Com preocupação, notamos hoje que o imperativo determinante da formação acadêmica no Brasil é a produção de profissionais especializados para o mercado de trabalho, quando deveria ser prioritariamente a formação de pesquisadores. A grande diferença entre um e outro é que enquanto o profissional especializado reproduz conhecimento adquirido em sala de aula, o pesquisador produz conhecimento através da pesquisa, o que particularmente para a nação e a ciência é mais interessante, pois gera desenvolvimento ao país. No Brasil ainda é muito difícil a alguém que almeja ser pesquisador encontrar incentivos acadêmicos e financeiros suficientes para emprenhar estudos sérios. Sempre esbarra em trâmites burocráticos e poucos incentivos financeiros, o que obriga a muitos a produzir ciência fora do país. Em todo território nacional os grandes centros de pesquisa estão restritos às poucas universidades, quase sempre públicas ou comunitárias. Não criticamos aqui de forma alguma a necessidade de se ter profissionais atuando no mercado, sabemos o quanto é necessário para a economia e a sociedade a mão de obra especializada para uma melhor qualidade de vida de todos nós. E como é importante para cada pessoa ter uma boa profissão que lhe dê êxito e prosperidade. No entanto, o mercado não deve ser um fim em si mesmo na formação acadêmica, pois além da riqueza econômica temos que produzir riqueza intelectual, científica, artística e cultural para encontrarmos caminhos aos inúmeros problemas de desigualdade em nosso país, e isto só é possível pela pesquisa.

O que assistimos, na educação superior, é um cenário em que a necessidade de mercado orienta e determina o que a grade curricular deve ensinar ao indivíduo, ocasionando uma invasão na autonomia acadêmica e o empobrecimento da formação dada ao discente. A educação está a serviço do mercado quando, na verdade, deveria estar a serviço do conhecimento. Devemos repensar os conceitos determinantes do ensino superior no Brasil, estarmos atentos ao que realmente formamos na universidade e a serviço de quem estamos formando ou produzindo dentro dela. Se por um lado é importante termos pessoal bem formado para executar funções determinadas, por outro, precisamos de autonomia para formar sujeitos que possam recriar novas formas de pensar a realidade. Somente uma formação holística que priorize a pesquisa e a extensão poderá dar respostas às infinitas indagações do homem e do mundo contemporâneo, e o lugar próprio por vocação a tudo isto é a educação superior autônoma.

O autor, Fausi dos Santos, é filósofo e professor de Teoria do Conhecimento da Universidade do Sagrado Coração. fsantos@usc.br

Comentários

Comentários