São Paulo - Um dia depois de o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciar que deixará o cargo até 31 de março para concorrer à Presidência da República, a cúpula do PSDB manifestou ontem temor de um acirramento da disputa com o prefeito de São Paulo, José Serra. E apelou para a unidade.
Segundo tucanos, o lance de Alckmin precipitou a discussão da candidatura no PSDB. Dizendo reproduzir as preocupações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de Minas, Aécio Neves, afirma que “chegou o momento do PSDB avançar nas consultas para ter a decisão tomada até março”, evitando um confronto entre os dois. “Se não tivermos unidade, não estaremos preparados para o embate. E não acho que essa seja uma eleição ganha”, alertou Aécio, após receber um telefonema de Alckmin.
Apesar do discurso, Aécio insinua simpatia por Alckmin, inclusive ao repetir argumentos do governador paulista. Aécio chega a usar a mesma expressão do líder do governo Alckmin na Assembléia Legislativa, Edson Aparecido, ao dizer que o governador “não está queimando etapas”. “Ele apenas dá mais uma demonstração de sua disposição de disputar, uma das pré-condições para a escolha”, disse Aécio, sugerindo que o candidato esteja preparado para “não ser escolhido”.
O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), diz que, “se houver sofreguidão, o comando do partido terá de intervir” na disputa. O senador cobra “disciplina, fidelidade e respeito ao partido” do que não for o escolhido. “Aquele que não for, esteja onde estiver, vai ter que se conformar com os fatos”, afirma Virgílio, acrescentando que espera nobreza e absoluta aceitação do que não for escolhido.
“Não há hipótese de briga. Não vamos permitir que o grande mérito do PSDB (os candidatos) se transforme num problema”, afirmou o secretário-geral do partido, deputado Eduardo Paes (RJ). Ontem, Alckmin telefonou para líderes tucanos para justificar sua decisão. Ele alegou estar respeitando o rito partidário. “O governador está tranqüilo, com a certeza de que está cumprindo etapas e da naturalidade que é a candidatura dele”, diz Aparecido.
Para Virgílio, o potencial eleitoral e a capacidade de agregar serão os critérios para a escolha. Tudo será feito com avaliação das pesquisas. É o que os aliados de Alckmin não querem. “Não é só pesquisa”, reage Aparecido.
Saída é “óbvia”
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin , disse ontem que sua decisão de deixar o cargo até 1 de abril para tentar concorrer à Presidência da República é “óbvia” e “natural”. Ele negou que, anunciando desde já sua retirada, esteja pressionando seu partido e o prefeito paulistano José Serra (PSDB) - seu concorrente interno na disputa - a definir logo a candidatura tucana para presidente. Anteontem, Alckmin anunciou que irá deixar o cargo.
Ontem, ao reafirmá-la em evento no Palácio dos Bandeirantes - sede do governo - recebeu apoio de tucanos como o vereador paulista José Aníbal, ex-presidente da sigla. O governador aproveitou para elogiar o vice, Cláudio Lembo (PFL), que deverá substituí-lo e ocupar o governo por nove meses. “O doutor Lembo é um craque. (Em) tarefas de engenharia política e jurídica, ele, com seu conhecimento jurídico e bom senso, busca sempre as melhores decisões.” Sobre sua retirada, disse: “Eu quero ser candidato. É óbvio que tenho que deixar o governo antes do prazo da lei”.
Questionado se sua decisão poderia provocar um racha no partido, negou. Sobre a invasão de oito fazendas em cinco cidades no Pontal do Paranapanema no fim de semana - por cerca de 500 membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - Alckmin disse que “o caminho não é invasão de terras”. Segundo o MST, as invasões são um protesto pelo não-cumprimento da promessa de assentar 1,4 mil famílias na região.
____________________
Apoio do vice
São Paulo - Na expectativa de assumir o Palácio Bandeirantes, o vice-governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), não é um entusiasta do lançamento de candidatura própria do partido ao governo de São Paulo nas próximas eleições. Disposto a preservar a confiança de Geraldo Alckmin, Lembo contrariou ontem os defensores da independência pefelista ao exaltar a parceria com o PSDB, partido do governador.
Embora admita a relevância da candidatura própria para a vida partidária, Lembo sugere que o PFL se dedique à consolidação de uma grande bancada. “Candidato em chapa majoritária é importante para o partido. Porém tenho uma visão muito clara para o PFL. O PFL, cada vez mais, deverá ser um partido do Parlamento”, diz. A três meses de assumir a cadeira de Alckmin, Lembo também contesta os que apostam no momento como ideal para o PFL chegar ao governo.
“O partido tem que se formar ao longo do tempo, com grande chapa para deputado. Temos que crescer paulatinamente. Qualquer pulo no escuro é ingênuo e inconseqüente.” Antes do lançamento, diz, “tem que ver viabilidade, as condições políticas e o que é melhor para São Paulo”. Apesar disso, Lembo faz elogios ao candidato cogitado pelo PFL, o empresário Guilherme Afif Domingues.
Lembo descarta a possibilidade de ele mesmo concorrer. Dizendo-se à disposição de Alckmin, promete manter a equipe. “Vamos continuar a linha administrativa do governo. Nem penso em alterar o secretariado. O secretariado é de primeira linha.”