Seul - Naquela que já pode ser considerada de longe a maior fraude científica do século que se inicia, o sul-coreano Woo-Suk Hwang foi acusado por um painel de especialistas da Universidade Nacional de Seul de ter fraudado todos os seus trabalhos sobre clonagem humana, inclusive um artigo “revolucionário” de 2004 no qual descrevia a produção do primeiro embrião humano clonado.
O relatório final da auditoria, publicado ontem, devolve à estaca zero o campo da clonagem terapêutica, joga na fogueira a promessa das células-tronco embrionárias para a medicina e pode render a Hwang um processo por malversação de dinheiro público - o governo da Coréia do Sul despejou US$ 65 milhões no laboratório do então herói nacional.
A investigação deixou com Hwang um único mérito em meio a uma batelada de artigos científicos falsificados: Snuppy, o galgo afegão criado pelo cientista coreano e sua equipe, é mesmo o primeiro clone de cão. “A equipe do Dr. Hwang não pode deixar de assumir uma grande responsabilidade por ter fabricado os resultados e escondido os dados”, disse Myung-Hi Chung, chefe do painel de investigações da universidade - da qual Hwang era professor e estrela maior até o mês passado, quando se demitiu devido aos primeiros resultados da auditoria.
No último dia 23, o painel disse que não havia evidências de que Hwang tivesse produzido 11 linhagens de células-tronco a partir de embriões humanos clonados, como afirmou ter feito em artigo na revista “Science” de junho. Mas isso ainda deixava em aberto a possibilidade de que a técnica de clonagem supostamente desenvolvida por Hwang, que usava poucos óvulos, tivesse funcionado em alguma medida. O cientista havia anunciado na mesma “Science”, em março de 2004, ter produzido o primeiro embrião humano clonado por meio dessa técnica. Mas nem isso aconteceu.
Hwang caiu em desgraça acadêmica e virou um mico para o governo coreano, que o tinha promovido a ídolo - até selos com sua imagem foram impressos. Promotores de Justiça do país impediram Hwang e mais nove cientistas de deixar a Coréia do Sul. Eles iniciariam uma investigação assim que o painel anunciasse seus resultados. O painel disse que Hwang só obteve os primeiros passos na clonagem terapêutica, que consiste em criar células-tronco “personalizadas”, com o DNA do próprio paciente. Isso apesar de ter à disposição recursos abundantes, que incluíram 2.061 óvulos de 129 mulheres. A colônia de células que ele apresentou no artigo de 2004, na verdade, era um óvulo humano induzido a se dividir por partenogênese (sem ser fertilizado). Tais óvulos não progridem além de umas poucas células.
Foi exatamente esse o problema de outra clonagem humana, anunciada em 2001 na revista “Scientific American” por Robert Lanza e José Cibelli, da empresa americana ACT, e que se revelou uma fraude. Cibelli, hoje na Universidade de Michigan, é co-autor do artigo de Hwang de 2004.
O painel criticou Hwang por fabricar dados e disse que esse “caso escandaloso” seria uma lição para a ciência sul-coreana. Pesquisadores dos EUA disseram que o campo da pesquisa com células-tronco embrionárias não será muito afetado a longo prazo, porque sua promessa científica continua a mesma. O mesmo não pode ser dito da clonagem terapêutica. “Voltamos à estaca zero, porque o único trabalho sobre clonagem terapêutica foi aquele pseudo-artigo de 2001”, diz Lygia da Veiga Pereira, geneticista que pesquisa células-tronco na USP, referindo-se à publicação da ACT.
A fraude de Hwang, que sobreviveu durante quase dois anos, provavelmente impediu que outros cientistas se aventurassem na clonagem terapêutica. Robert Lanza, que perdeu recursos devido ao suposto sucesso de Hwang, disse que o desenho experimental do artigo de 2004, no qual a mulher que forneceu o núcleo de uma célula adulta também forneceu o óvulo, pode ter sido feito para escapar à detecção da fraude por teste de DNA.
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Desafios práticos
Seul - A clonagem terapêutica é uma das maiores promessas da medicina dos últimos anos, mas, mesmo se as supostas pesquisas revolucionárias de Hwang e colegas fossem verdadeiras, a idéia ainda estaria um bocado distante da aplicação clínica.
O conceito é simples. Se os cientistas pudessem produzir um embrião que é idêntico geneticamente a uma pessoa doente, deixando que ele se desenvolvesse até a fase de blastocisto (uma esfera oca com cerca de cem células), seria possível produzir, a partir dele, células e tecidos sob medida para o paciente.
A possibilidade vem do fato de que, na fase de blastocisto, o clone contém as chamadas células-tronco embrionárias, precursoras de todos os órgãos do indivíduo adulto. Bastaria “ensiná-las” a se transformar no tecido desejável (músculo cardíaco no caso de alguém com problemas de coração, por exemplo) e transplantá-las, porque seu DNA idêntico não geraria rejeição. É mais fácil falar do que fazer.
Além da baixa taxa de sucesso da clonagem em animais (centenas de óvulos para produzir um só embrião) e de nenhum sucesso em humanos, ninguém ainda sabe como “ensinar” as células-tronco a se transformar no tecido desejado. Injetá-las sem essa preparação costuma levar à formação de teratoma, um tipo de tumor.