Conhece o Doutor Pimpolho, chefe desbocado que não pensa duas vezes antes de mandar sua secretária se...? O Incrível Rosca, um “moço tão bonito” que não resiste às tentações e pode deixar seu lado mais sensível aflorar a qualquer momento? Ou ainda o Homem-Cueca, super-herói que pensa duas vezes antes de atender qualquer chamado? A única coisa que essas figuras têm em comum, além da facilidade em fazer rir na programação da 96 FM, é a voz que os comanda. A voz do humorista paulistano Felipe Xavier.
No ar em mais de 60 emissoras de rádio pelo País, Xavier comanda o “Chuchu Beleza”, que entra na programação ao longo do dia com quadros de humor com os personagens já consagrados ou com situações novas. A inovação do humor no rádio já completa quase 15 anos - começou em 1991 ao lado dos amigos de infância Marco Bianchi e Paulo Bonfá, com quem Xavier formava os Sobrinhos do Ataíde - que não era ninguém, era apenas um nome. Os humoristas separaram-se e Xavier decidiu continuar apostando no que chama de radiodramaturgia com humor.
Deu certo. Atualmente, ele tem um estúdio próprio onde produz todos os quadros, enviados semanalmente para as emissoras que transmitem o “Chuchu Beleza”. “O mais legal é saber que meu trabalho gera momentos de alegria para as pessoas. Penso sempre que tem gente saindo do escritório estressado, teve um dia de cão e, de repente, com a historinha, o cara dá uma risada e muda todo aquele momento. Isso é muito gratificante”, comenta. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao JC Cultura.
JC Cultura - Vamos começar falando do futuro. Quais são seus planos para 2006?
Felipe Xavier - Esse ano tem Copa e eleições, então certamente vou voltar com o personagem Odemar, o político, acho que vai ter muito assunto para brincar (risos). E ainda no primeiro semestre, devo fazer alguma coisa de Copa do Mundo. Uma rádio de São Paulo me convidou para participar das transmissões. Devemos fazer uma série especial do “Chuchu Beleza” ligado à Copa. São as duas coisas certas para o programa.
JC Cultura - Como é o seu processo criativo? Como surgem os personagens?
Xavier - É um pouco por tentativa e erro. Não faço pesquisas, não parto para essa linha, porque meu humor é ligado ao dia-a-dia, é um humor de situação. Começo a pensar no tema, fico atento ao que as pessoas estão falando e acabo criando uma historinha. Tenho os personagens e tenho o que chamo de histórias avulsas, e a maioria dos personagens surgem dessas histórias, que eu vou repetindo, repetindo, até ganhar corpo e tornar-se fixo.
JC Cultura - Dos personagens que surgiram dessa maneira, algum surpreendeu pela rapidez com que foi “efetivado”?
Xavier- Acho que o Doutor Pimpolho e o Homem-Cueca. Os dois aconteceram bem rápido. Quando eu trabalhava na rádio Jovem Pan em São Paulo, fui viajar para o Chile e conheci dois adolescentes, irmãos de uma amiga minha, e eles falavam muitas gírias de periferia, mas eram meninos classe média-alta. Não era muito condizente a maneira como eles conversavam. Na época, percebi como o movimento hip hop, que surgiu na periferia, estava atingindo outras classes sociais. Comecei a pensar um personagem que falasse disso e daí surgiu o Homem-Cueca. Com o Doutor Pimpolho, foi diferente: eu tinha trabalhado em uma empresa com um chefe que era muito mau-humorado, superchato, mas ao mesmo tempo, isso era tão forte que as pessoas davam risada, passava do ponto de ser chato e virava uma coisa folclórica. Os dois personagens eu coloquei no ar e em questão de um mês já havia repercussão.
JC Cultura - Como é a produção do “Chuchu Beleza”?
Xavier - O “Chuchu Beleza” é independente, de um estúdio meu onde produzo tudo. Escrevo as histórias, são sete por semana, faço isso na quarta. Na quinta-feira, vou para o estúdio para gravar e finalizamos as edições na sexta. Depois, mandamos para todas as rádios. Distribuímos para várias emissoras no Brasil. O que vai ao ar hoje em São Paulo, é o que vai ar no Brasil inteiro.
JC Cultura - Você grava todas as vozes de uma vez?
Xavier - Todos os quadros, eu gravo tudo de uma vez, numa tacada só. Tenho facilidade em mudar o timbre de voz para os personagens, mas isso é muito de treino, há muito tempo faço programas de rádio e fui me adaptando. Pego a história que escrevi no dia anterior e, quando desço para o estúdio, já sei como será a interpretação, a intenção de cada frase. É uma empresa que eu montei para fazer essa estrutura funcionar e atender a tantas rádios, fazendo também uma coisa especial para cada uma. Temos vinhetas personalizadas, mensagens para todas elas.
JC Cultura - Por que o Sobrinhos do Atíde acabou?
Xavier - Foi por falta de sintonia das partes. Cada um queria fazer coisas diferentes. Percebemos que um estava tolhendo a liberdade do outro, cada um querendo ir para um lado e se sentindo amarrado. Decidimos cortar e cada um seguir seu caminho.
JC Cultura - E como é seu relacionamento com o Bianchi e o Bonfá hoje em dia?
Xavier - A gente não tem projetos juntos. O Marco e o Paulo seguiram fazendo o “MTV Rock Gol”, eu participei por dois anos, no começo, mas acabei saindo porque não tinha afinidade com o tema. Agora, nessa Copa, vai ser meu primeiro trabalho de futebol. Mas vou partir para o lado de humor, não vou comentar os jogos porque isso é para quem sabe. Já os dois sempre gostaram muito de futebol. A gente continua se falando. Com o Bonfá, tenho menos contato, falo mais com o Marco.
JC Cultura - E você tem novos projetos também para a TV?
Xavier - No ano passado eu fiz um programa na Rede 21, em São Paulo, o “Blog 21”. Era um programa de videoclipes, muito interessante, e eu comecei a desenvolver quadros de humor me caracterizando e interpretando os personagens. Nunca tinha feito isso e deu muito certo. O programa saiu do ar mas tenho projeto de voltar à TV fazendo humor propriamente dito.
JC Cultura - E você se sentiu confortável fazendo os personagens? Porque até então você usava somente a voz.
Xavier - Foi muito legal. A maior descoberta desse ano que passou foi que eu também consigo trabalhar como ator. Foi muito gratificante porque era um receio, uma encanação que eu tinha, e deu muito certo. Neste ano, minha idéia é de voltar com um programa de humor.
JC Cultura - Em uma entrevista, o Luís Fernando Veríssimo reclamou que as pessoas exigem que ele seja engraçado pessoalmente, e não somente em seus textos. Você passa por isso? Pedem muito para você contar piada ou fazer as vozes dos personagens fora do estúdio?
Xavier - Eu não sou um cara muito engraçado (risos). Eu sou uma pessoa normal no dia-a-dia. Meu humor é de texto. Quando sento no meu computador, vou pensando, bolando coisas engraçadas, interessantes e inteligente. Procuro as palavras certas, faço jogo de palavras, as histórias precisam ter começo, meio e fim. É uma radiodramaturgia. Fora dali, sou uma pessoa normal, não sou mau humorado mas também não sou o “Zé Graça”. Tem humoristas que são assim e as pessoas, às vezes, acham que você tem que ser o “Zé Graça” o tempo inteiro. Mas pedem sempre para fazer as vozes dos personagens e isso não me incomoda, faz parte da curiosidade das pessoas. O que me incomoda é me encontrar na rua e me chamar de Homem-Cueca, “E aí, Doutor Pimpolho!”. Outro dia dei uma resposta: “Escuta, se você encontrar o Lima Duarte na rua você vai chamá-lo de Zeca Diabo, Sassá Mutema? Não vai. Então porque você acha que tem direito de me chamar pelo nome do personagem.” A pessoa deu risada e me disse que eu tinha razão. (Risos)