Ser

Engenheiro das águas

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 11 min

Quinze troféus e 322 medalhas brilham no currículo do nadador e professor de engenharia Norival Agnelli, 56 anos. Expostos em um dos cômodos do seu apartamento, espaço ocupado também por aparelhos de ginástica, os prêmios traduzem a dedicação e o sucesso que norteiam a carreira esportiva de Agnelli.

Campeão brasileiro na categoria master, ele começou a nadar ainda criança, aos 7 anos, na piscina de alguns vizinhos do Jardim Bela Vista. Aos 10 anos, num campeonato infanto-juvenil, conquistou sua primeira medalha.

Aos 17 anos, Agnelli trabalhou como monitor de natação no Bauru Tênis Clube (BTC) e no Clube Marimbondo, em Lençóis Paulista. E desde então, elegeu as piscinas como segundo “habitat”. Treina todos os dias com Thiago Sakamoto, técnico de natação do BTC, e participa de campeonatos constantemente. Para manter o equilíbrio físico e mental, aposta em sessões de alongamento e ginástica localizada, praticadas em casa.

Tanta dedicação à natação só é comparada à paixão de Agnelli pela engenharia, profissão “descoberta” ainda na infância. “A década de 50 foi o período no qual foi construído o viaduto Juscelino Kubitschek, que liga o Centro da cidade ao Jardim Bela Vista. Eu tinha 7 anos e acompanhei toda construção: vi a montagem das formas, armaduras, concretagem e o acabamento do viaduto. Isso foi ficando na minha cabeça”, conta.

Com incentivo dos pais e paralelamente à carreira esportiva, ele cursou engenharia na Fundação Educacional de Bauru, hoje Universidade Estadual Paulista (Unesp). Quando se formou, entrou para o mercado de trabalho.

Atualmente, Agnelli - pai de quatro filhos e casado com a professora de jornalismo Maria Helena Gamas - divide seu tempo entre as aulas e a natação, duas vocações que embora tenham perfis diferentes, exigem a mesma carga de treino e disciplina.

JC - O que a natação representa em sua vida?

Agnelli - Ela tem um significado muito forte porque eu começei a nadar muito cedo, aos 7 anos. Morava próximo a uma piscina e na vizinhança havia um pessoal que nadava e competia, inclusive meu irmão, que competia. Isso criou um ambiente propício para que eu começasse a nadar. E a natação acabou me trazendo qualidade de vida e abriu espaço profissional porque através dela eu fiquei bastante conhecido. Na categoria infanto-juvenil consegui apoio e ajuda que propiciaram condições financeiras para que eu continuasse nadando e competindo. Venho de família humilde e meus pais não tinham condições de me ajudar financeiramente.

JC - Podemos dizer que a natação abriu muitas portas em sua carreira?

Agnelli - Exatamente. A natação acabou me proporcionando a chance de trabalhar. Com 14 anos começei como office boy em uma empresa de sementes e cereais cujo dono da empresa tinha um filho que também nadava. Além disso, em função da natação fui convidado para ser monitor de natação no Bauru Tênis Clube (BTC). Na época tinha 17 anos e, logo em seguida, passei a treinar a equipe de Lençóis Paulista, no Clube Marimbondo.

JC - Quando passou a se interessar pela engenharia?

Agnelli - Acho que a engenharia veio até antes da natação porque meu pai trabalhava na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Ele acompanhava as obras que eram feitas pelos engenheiros e quando chegava em casa, contava um pouco sobre seu trabalho, dizia que esses profissionais projetavam e construíam pontes, viadutos, estradas e que eles ganhavam bem, moravam em sobrados bonitos e nas melhores casas. E acho que tudo isso foi ficando na minha cabeça. Naquela época, na década de 50, foi o período no qual foi construído o viaduto Juscelino Kubitschek, que liga o Centro da cidade ao Jardim Bela Vista. Eu tinha 7 anos e acompanhei a construção, vi a montagem das formas, das armaduras, concretagem, o acabamento do viaduto e aquilo foi ficando na minha cabeça. Costumava ir à esplanada da Estrada de Ferro, pegava algumas pedrinhas que ficavam ao lado dos dormentes do trilho e, no chão, encontrava algumas barrinhas de arame grosso que se usava para lacrar os vagões. Pela Estrada de Ferro vinha cimento de Corumbá e quando a empresa de Bauru retirava os sacos de cimento do vagão, sempre estourava algum; o que sobrava eu pegava. E levava tudo isso para casa: cimento, pedrinhas e arames grossos. E em casa em reproduzia o viaduto JK. Então essa vocação para engenharia começou muito cedo, junto com a natação. Foram as duas coisas que eu mais fiz até hoje: praticar natação de forma competitiva e exercer a engenharia.

JC - Para ambas as vocações, o senhor teve apoio da família?

Agnelli - Tive. Quando meu pai viu que eu queria ser engenheiro, sugeriu que eu desse aulas de matemática e física porque eu gostava muito dessas matérias. Ele fez uma lousa na parede do meu quarto e eu começei a dar aulas particulares em casa. Estava com 14 anos. Com 17 anos tinha tantos alunos que não havia mais espaço para acomodá-los.

JC - E qual foi a solução?

Agnelli - O professor Gino Crês, que me deu aulas no ginásio e no colegial, era dono de um cursinho preparatório em Bauru. Resolvi pedir para que ele me emprestasse uma sala durante o dia para eu dar aulas particulares e ele me cedeu a sala. Um dia, o Gino foi assistir minha aula. Quando ele entrou na sala, lembro que eu tremia muito, afinal ele era meu professor. Aí o Gino gostou e me convidou para dar aulas de matemática no cursinho dele. Fiquei lá durante três anos. Na Faculdade de Engenharia, no terceiro ano, passei a ser monitor. E quando me formei em 1973, vendi o cursinho e fiz uma proposta ao diretor executivo da Fundação Educacional de Bauru (hoje Universidade Estadual Paulista - Unesp), para dar aulas e cuidar de um laboratório de materiais de construção. Eles aceitaram minha proposta e eu fui contratado pela Faculdade de Engenharia. Começei em 1973, no Colégio Técnico Industrial (CTI). E em 1974 passei a dar aulas na Faculdade de Engenharia na área de construção.

JC - E como foi essa experiência?

Agnelli - Eu gostava de dar aulas e naquela época, trabalhando como professor da Fundação Educacional de Bauru em regime de tempo integral, eu podia trabalhar também como engenheiro, porque a fundação mantinha o regime de tempo integral, mas não de dedicação exclusiva. Trabalhava 40 horas por semana, mas tinha liberdade de exercer profissão fora. E exerci a profissão de engenheiro até a encampação da Universidade de Bauru, em 1985, que tinha como mantenedora a FEB. Em 1988, ela foi encampada pela Unesp, cujo regime é de dedicação exclusiva, e dessa forma eu não poderia mais trabalhar fora. Mas o fato de ter trabalhado como engenheiro foi muito bom para minha carreira de professor. Foi uma forma de levar a experiência profissional adquirida no mercado para a sala de aula, tanto é que eu sempre lecionei disciplinas profissionalizantes e de final de curso, como materiais de construção, organização de obras, construção de edifícios e segurança na construção.

JC - Existe uma certa discussão entre os docentes que dizem que os professores devem ter conhecimentos técnicos e não somente acadêmicos. Qual sua opinião sobre isso?

Agnelli - A universidade precisa ter os dois tipos de professores: tem aquele professor acadêmico e que gosta de fazer pesquisa. A universidade precisa desse professor porque ele vai aprofundar o conhecimento científico, que é um dos pilares que forma universidade pública: o ensino, a pesquisa e a prestação de serviços. Mas a universidade precisa também do profissional que tenha a vivência prática, notadamente para os cursos de formação profissional, como engenharia, medicina e psicologia, entre outros. Não se pode admitir que um aluno faça uma universidade e termine sem nenhuma experiência profissional, que ele tenha apenas um enfoque acadêmico e científico, o qual é necessário, mas não o suficiente. O aluno precisa sair da universidade com uma visão prática. E somente o professor que está no mercado de trabalho, participa do embate do dia-a-dia, dos desafios e situações inovadoras que nem sempre estão nos livros e requer decisões práticas adquire essa vivência e pode passar isso para seus alunos. Então, nesse sentido, o fato de eu ter trabalhado como engenheiro civil de 1974 a 1988, durante 14 anos, me deu credenciamento para formar meus alunos também com uma visão prática.

JC - Durante todo esse tempo, a natação sempre esteve presente em sua trajetória?

Agnelli - Tenho um perfil eclético e fiz muitas coisas em minha vida, mas a natação esteve sempre presente.

JC - É possível relacionar a natação e a engenharia?

Agnelli - Acho que não. É um pouco complicado, mas na natação, a disciplina e organização são fundamentais porque é preciso seguir o esporte de forma metódica e disciplinada, atributos formados no curso de engenharia. A engenharia dá ao profissional esses dois vetores: disciplina e metodologia. Na natação e em qualquer outro esporte, quando se conduz de forma competitiva, exige dedicação e métodos de treinamento para alcançar seus objetivos.

JC - Qual é a freqüência com que o senhor treina?

Agnelli - Treino uma hora e meia todos os dias, de segunda a sexta-feira. Quando há algum contratempo e falho em algum desses dias, treino também aos sábados e domingos.

JC - E o senhor continua participando de campeonatos? Qual foi a última premiação?

Agnelli - Desde 1990 participo de campeonatos na categoria master. O último foi ano passado, em Aracaju. Ganhei cinco medalhas: três de ouro, uma de prata e uma de bronze. Fui campeão brasileiro em três provas: 50, 100 e 200 metros nado costas.

JC - O senhor nunca pensou em participar das Olimpíadas?

Agnelli - Naquela época, como nadador juvenil, até os 18 anos, era muito difícil. O Brasil quase não participava das Olimpíadas e quando ia um ou outro nadador era necessário ter o aporte financeiro da família e um patrocinador. Quando começei a nadar, nos anos 50, o País teve três grandes figuras da natação: o Manoel dos Santos, que era de Andradina e foi campeão mundial. O Okamoto, de Marília e a Maria Lenk, ícone da natação brasileira e a primeira mulher sul-americanaa que participou de uma Olimpíada. Ela instituiu o nado borboleta e foi uma marco da natação brasileira. Não pensei em uma Olimpíada porque naquela época o País teve casos muito isolados. A natação brasileira só começou a ficar mais presente com a geração do Gustavo Borges e do Fernando Scherer, o Xuxa.

JC - Como o senhor analisa o cenário esportivo atual?

Agnelli - Eu considero que 2005 foi um ano muito bom para o esporte brasileiro. Nós tivemos grandes destaques, desde o futebol, com o título de tricampeão mundial conquistado pelo São Paulo . Nos demais esportes, tivemos o Diego Hipólito, que foi campeão mundial em ginástica olímpica. No apagar das luzes de 2005, tivemos ainda a presença do nadador paraibano Caio Márcio, que bateu o recorde mundial de 50 metros nado borboleta. Mas o Brasil infelizmente deixa a desejar em relação a patrocínio. Só existe ajuda financeira de grandes empresas e do governo quando o esportista já é um nadador de ponta. Não há um incentivo para formar o atleta, é como se eles passassem a ajudar quando há um retorno imediato. Não quero generalizar. Em Bauru há empresas que ajudam constantemente a natação e outras modalidades, mas se pensarmos em termos macro, há muito a desejar na questão de patrocínios. O que traz nosso incentivo é participar de campeonatos, é um estimulo para estar sempre treinando. Costumo dizer que nós treinamos dentro no limite da nossa capacidade. Regra geral, nós não devemos ultrapassar nossos limites, mas devemos sempre fazer um condicionamento e um esforço para esticá-los. Já que não podemos ultrapassá-los, ampliamos os limites. E isso se consegue através de disciplina, dedicação, constância de prêmios e condicionamento.

JC - Como o senhor faz para “esticar” seus limites?

Agnelli - Só nadar não é o bastante. É preciso ter um condicionamento físico com ginástica localizada e alongamento. Isso eu faço aqui em casa. Fiz yoga durante dois anos. Aprendi as posturas e posições e hoje pratico aqui em casa. Faço meia hora de alongamento e uma hora de ginástica localizada, três vezes por semana. Isso ajuda a manter o equilíbrio físico e mental.

JC - O que gosta de fazer nas horas livres?

Agnelli - Além de passear com meu cachorro, gosto muito de cinema, faço um pouco de caminhadas e às vezes, vou à piscina para brincar um pouco.

JC - Quais são seus planos para 2006?

Agnelli - Continuar nadando muito e competindo bastante.

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