Acho que se chama Semmler a aldeia encravada nos Alpes, entre a fronteira da Itália e da Áustria. Tem exatos 5.420 habitantes. O censo contou também o padre que vem de fora para rezar missa à minoria católica. Mais de 90% dos habitantes são calvinistas. Semmler (seja este o nome) parece uma cidade-presépio com seus chalés avarandados, gerânios nas janelas e tetos de duas águas. O único jardim da cidade está sempre bem tratado e florido, mesmo no inverno. Os funcionários replantam as flores produzidas o ano todo nas estufas municipais. Durante o inverno resistem pouco por causa da neve. Os jardineiros têm o imenso trabalho de substituir todos os dias os vasos enterrados, para que o jardim conserve sua exuberância de cores.
A praça foi projetada para embelezar Semmler e servir de local de encontro às famílias. Quando o tempo permite, a maioria dos habitantes prefere um bate-papo interativo a ficar em casa vendo TV. Outro objetivo da praça foi o de valorizar a arquitetura da estação ferroviária, erguida no mais belo estilo enxaimel, característico das regiões montanhosas... Aquela arquitetura que deixa à vista as peças grossas de madeira da estrutura do prédio.
O inusitado é que em Semmler não há trens. Mesmo assim a comunidade construiu, além da estação ferroviária, um leito de pedras que vai de uma encosta a outra das montanhas que delimitam o vale. A pergunta inevitável dos visitantes aborda sempre o porquê da estrada sem trilhos e a existência de uma belíssima “banhoff” (gare, em alemão) numa cidade sem ligação ferroviária. A resposta dos habitantes está na ponta da língua, mesmo das crianças: “Um dia o trem vai chegar e estaremos prontos”. Semmler é hoje uma cidade movimentada, ponto de parada obrigatória para os turistas alpinos que vêm por rodovia e se encantam com o jardim florido, a arquitetura enxaimel e o povo acolhedor.
Desculpe-me por essa história que parece fora do nosso contexto tropical. Na realidade, não resisti em contá-la ao ler as argumentações otimistas e apocalípticas sobre o novo Aeroporto de Bauru/Arealva. Não temos aviões, mas em breve vamos poder contar com uma magnífica pista capaz de dar pouso a qualquer tipo de aeronave. Se não bastassem os cerca de dois mil metros prontos de pista asfaltada, já estamos providenciando mais 500 metros para ninguém da Boeing ou da Air Bus botar defeito. Para adiantar o serviço projeta-se uma linha férrea que ligará o nosso Aeroporto ao de Viracopos. Aquele que levou mais de 40 anos para se transformar num referencial de embarque e desembarque de cargas, talvez porque as lideranças de Campinas não sejam tão expeditas quanto as nossas.
Parodiando o Barão de Itararé, podemos dizer que há mais coisas no ar do que os aviões da Pantanal com suas tarifas escorchantes. O importante é acreditar, ter a mesma fé dos cidadãos daquela aldeia perdida nas montanhas. Um dia a gente chega lá, ou os aviões chegarão a nós. Acesso asfaltado, torre de comando, hangares, armazenamento de combustíveis e radares de proteção ao vôo são detalhes menos significativos. Isso tudo se ajeita depois. O importante é que o Aeroporto Internacional tenha um nome: Benedito (Zico) César, Moussa Tobias, Comandante Ribeiro de Barros, Cosmonauta Marcos Pontes. A gente logo decide... Seja como for, saberemos dar crédito ao futuro presidente da República votando maciçamente em Geraldo Alckmin. A carga para alimentar o ventre dos Jumbos há de aparecer a tempo e hora.
De que nos adiantou ter uma estação ferroviária orgulhosamente chamada de Gare Central? Foi construída, imponente, depois das ferrovias consolidadas. Hoje, esse monumento art déco, com suas linhas retas e simples numa interpretação modernista das formas naturais, jaz inútil, abandonado. Cometeram a impropriedade de construir a estação depois do trem, e não antes, como estamos fazendo com o Aeroporto, imbuídos do mesmo realismo fantástico dos calvinistas alpinos.
A população de Semmler ainda aguarda a chegada do primeiro comboio. Será preciso rasgar o ventre de várias montanhas para a passagem da locomotiva e seus vagões. Mas um dia soará o apito na curva e a cidade explodirá em festas. O homem não crê o que é, ele crê o que deseja ser. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)