O Ministério de Minas e Energia não tem que se preocupar com “movimentos especulativos” em torno do preço do álcool porque, efetivamente, o que ocorre é especulação mesmo (“Álcool em Bauru chega a R$ 1,799...” - JC, pág 5 de 17/1) . Ao não liberar no terceiro trimestre de 2005 os R$ 500 milhões programados para o pagamento dos “warrants” (estoques de álcool hidratado que a ANP obriga os usineiros manterem em suas usinas, com permissão para comercialização somente na entressafra -novembro a março do ano seguinte- quando então devolvem o dinheiro a eles adiantado), as autoridades fazendárias - em última instância o Ministro da Fazenda - não deixaram outra alternativa aos usineiros senão a de, para fazerem caixa para custeio da safra seguinte, desovar de uma só vez seus estoques nas mãos de atravessadores não produtores que agora, mais do que nunca, estão auferindo grandes lucros.
Ressalte-se aqui que, como vem ocorrendo com outras verbas alocadas no Orçamento Geral da União (OGU), mas não liberadas efetivamente, a retenção de tanto numerário destina-se, exclusivamente, à obtenção de superávits primários cada vez maiores. Enfim, estamos todos sentindo na carne, agora, que o Brasil ficou refém da política de fazer bonito para o mundo e, principalmente, para a banca financeira internacional. Acabamos de antecipar o pagamento de um empréstimo de US$15 bilhões ao FMI, que se venceria somente em meados de 2.007 e a nós alocado a juros de 5% ao ano, quando a nossa própria taxa referencial (Selic) é 18% a/a...
A Argentina, também para fazer bonito, fez o mesmo... Mas esses são outros “quinhentos merréis”! Ela vem de um calote de 75% sobre cada dólar a ela emprestado... Ou seja, para cada US$ 1,00 a Argentina irá devolver a seu legítimo dono a significativa quantia de US$ 0,25, num prazo de 30 anos e a juros de 6% a.a.
Plagiando nosso presidente, “nunca se viu na história deste país” tanta incompetência! Será que não percebem que não adianta neste momento qualquer acordo com usineiros exatamente porque o álcool que seria comercializado na entressafra, e que seria vinculado aos “warrants”, não está mais nas usinas e sim na mão dos especuladores? Escrevam e anotem: talvez tenhamos o preço do álcool hidratado em baixa somente no início da próxima safra, em abril/maio deste ano. Talvez!... Em resumo: isto é, senhores, o governo trabalhando contra o povo!
João Guilherme Ortolan