Nacional

Conselho pede cassação de Wanderval

Por Silvio Navarro | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Brasília - O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) apresentou ontem parecer no Conselho de Ética da Câmara recomendando a cassação do mandato de Wanderval Santos (PL-SP) sob acusação de “submissão interessada” e “subordinação negociada” ao ex-deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), ambos envolvidos no escândalo do “mensalão”. O relatório de Alencar foi lido na tarde de ontem, mas teve sua votação no conselho adiada porque o deputado José Carlos Araújo (PL-BA), que é suplente do conselho, pediu vista do texto.

O parecer será votado na próxima sexta-feira e, em seguida, segue para o aval do plenário. Wanderval é acusado de ser destinatário de R$ 150 mil do esquema de repasses montado pelo empresário Marcos Valério de Souza, apontado com o operador do “mensalão”. O dinheiro foi sacado por um funcionário do seu gabinete das contas de Valério no Banco Rural.

O nome do deputado aparece no verso da ordem de pagamento. O argumento do deputado é que os recursos foram sacados a mando de Carlos Rodrigues, ex-Bispo Rodrigues, que renunciou ao mandato de deputado federal para evitar enfrentar processo de cassação. Ele afirma que só tomou conhecimento do saque pela imprensa e que não ordenou que seu assessor fosse ao banco.

Ontem, Wanderval afirmou “nunca ter tido negócios com o PT nem com Valério”. Em seguida, chorou e encerrou sua fala afirmando “não admitir perder o mandato pelo fato de o seu processo ser julgado na frente dos demais”. O processo de Wanderval puxará a fila dos 11 em andamento no conselho sobre parlamentares apontados como beneficiários do “mensalão”.

A tendência é que o parecer contra ele seja aprovado no conselho por ampla margem dos votos na sexta-feira. No parecer, Chico Alencar diz que Wanderval “foi inequivocamente partícipe da mesma engrenagem espúria da qual tomaram parte aqueles e tantos outros acusados de recebimento de vantagens indevidas” na Câmara.

O principal pilar que sustenta o relatório pela cassação é a tentativa de Wanderval de transferir a responsabilidade pelos atos de seu assessor a outro deputado - no caso Rodrigues -, o que destoa das prerrogativas do mandato parlamentar. “O representado procura eximir-se de responsabilidade, alegando que não era senhor do seu mandato, que era um submisso, subordinado hierarquicamente ao então deputado Carlos Rodrigues.” Tanto Wanderval quanto Rodrigues são ex-bispos da Igreja Universal do Reino de Deus.

No parecer, o relator cita um trecho de um depoimento de Rodrigues ao conselho, em julho, no qual ele diz “não ter poder de mando sobre ninguém” e que “o cidadão não é candidato da igreja, mas de si e do partido”. O relator afirma ainda que Wanderval “alienou e terceirizou” seu mandato e que ele foi “sócio-cotista” de Rodrigues em “empreendimentos radiofônicos pelo País”.

Sobre Rodrigues, diz se tratar de “figura de proa dos esquemas político-financeiro-eleitorais alimentados pelo valerioduto”.

O conselho também ouviu ontem o depoimento de José Mentor (PT-SP), acusado de ter recebido R$ 120 mil do “valerioduto”. Ele argumenta que seu escritório de advocacia recebeu o dinheiro como pagamento por serviço prestado a Rogério Tolentino, sócio de Valério.

A primeira parte do depoimento durou quatro horas -foi retomado à noite. Em determinado momento, apenas a deputada Ângela Guadagnin (PT-SP) acompanhava a sessão. A família do petista também assistiu ao depoimento na platéia. Integrantes do conselho apontaram atuação “confusa” do relator, Edmar Moreira (PFL-MG), criticado por repetir perguntas e desviar-se do foco. Para aliviar o clima, o líder do PL na Casa, Sandro Mabel (GO), único absolvido pelo conselho no caso do “mensalão”, mandou cestas com biscoitos fabricados em sua empresa.

Comentários

Comentários