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O ideal de servir


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Aquele que cria uma empresa ou instala um escritório profissional toma essa iniciativa pensando em ganhar dinheiro. O impulso que leva a essa decisão e a usar criatividade para que uma ou o outro sejam atrativos e criem oportunidades de sucesso chama-se empreendedorismo. Uma empresa ou um escritório profissional é um empreendimento, que, embora parta da intenção de ganhar dinheiro, deve oferecer algo mais que o produto ou serviço que as pessoas desejam. Além da satisfação pela utilidade e qualidade daquilo pelo qual estão pagando, as pessoas também desejam ser bem tratadas, receber atenção e não serem exploradas.

Não basta, portanto, o fato de fazer alguma coisa útil. Há empresas que produzem coisas necessárias, como alimentos, roupas, remédios etc ou prestam serviços de primeira necessidade, como restaurante, supermercado, farmácia, loja de calçados e confecções, e vão à falência. Há escritórios de advocacia, de contabilidade e consultórios médicos e dentários, todos destinados a fazer coisas indispensáveis, que fecham por falta de clientes. É verdade que as causas de fracasso são muitas, mas em grande parte elas estão ligadas à visão unilateral do empreendedor, preocupado apenas com o que vai ganhar.

Arie de Geus, ex-executivo da Shell, no livro ‘A Empresa Viva’, separa as empresas em duas categorias: a ‘empresa econômica”, gerenciada principalmente em função do lucro, e as ‘empresas duradouras’, organizadas em torno do propósito de se perpetuar como comunidade estável. As primeiras ele compara às poças d’água, formadas pela chuva, que não conseguem sobreviver. Basta esquentar o sol e elas evaporam. Já as duradouras são como os rios, cujas águas podem subir ou abaixar mas para desaparecer precisam de uma forte e prolongada seca. Estas são as que, para ganhar dinheiro, pensam primeiro em servir.

A revolução no pensamento da administração, ocorrida na segunda metade do século passado, com a teoria da qualidade total, colocou o cliente em primeiro plano e mudou o enfoque da liderança. Karl Albrecht, em ‘Programando o Futuro’ escreve: “O mundo de hoje requer que os líderes forneçam um novo tipo de liderança: a liderança de serviço. Já se foram os tempos em que um simples padrão de comando e controle funcionava. O antigo estilo militar de ‘chutar o traseiro’ perdeu sua utilidade. O empregado somente tratará bem o cliente se ele também assim for tratado. A empresa que deseja ser lucrativa deve estar preocupada em bem servir a todos os que com ela se relacionam – empregados, clientes, fornecedores, representantes do governo.

Reunindo empreendedores, homens e mulheres de negócio ou profissionais, o Rotary estabeleceu como objetivo de sua organização, ‘estimular e fomentar o ideal de servir como base de todo empreendimento digno.’ É o esforço pela visão bilateral ou caminho de duas mãos, em que o empreendedor reconhece que terá o que deseja se primeiro procurar servir em vez de ser servido. Dois lemas rotários expressam bem esse propósito: ‘Dar de si antes de pensar em si’ e ‘Mais se beneficia quem melhor serve.’ A preocupação e o esforço em oferecer um bom produto ou prestar um bom serviço, colocados antes da equação preço menos custo igual a lucro é o que torna o empreendimento digno e garante o seu sucesso. Mas não é só o Rotary que tem essa visão. A Igreja também, pois para o próprio Papa ela criou a designação de ‘servus servorum’, que significa ‘o servo dos servos.’ É o sumo pontífice pensando em servir e não em ser servido.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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