Saúde

Fácil de pegar, verme resiste à história

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 2 min

Se num canto do mundo homens se debruçam para desvendar características atmosféricas da maior lua de Plutão, num outro eles ainda se dobram com dores abdominais provocadas por vermes. Fácil de pegar, os parasitas não escolhem suas vítimas por classe social ou idade. Ameaçam a todos, principalmente os que moram em locais onde as condições de higiene são precárias.

Embora normalmente seja fácil diagnosticá-los, em alguns casos surpreendem inclusive profissionais da saúde. Num pronto-socorro de Bauru, por exemplo, eles chegaram a acionar o Conselho Tutelar por desconfiarem da gravidez de uma garota de 9 anos. Mais do que as dores abdominais, a barriga saliente da menina chamou atenção.

Após o exame ginecológico e a constatação do hímen preservado, a suspeita de verme ganhou força. Já os indícios apresentados pelo neto de 6 anos de Zélia (*), moradora de Bauru, foram outros. O garoto tem vontade de comer tudo e sente coceira constante na região anal. “Ele já tirou uma (lombriga) pelo nariz, quando estava dormindo. Chora de dor na barriga”, conta.

Para sanar o problema, Zélia recorre aos medicamentos distribuídos pelo núcleo de saúde, onde foram solicitados exames de fezes do neto. A filha dela, Cecília (*), recorreu à mesma unidade básica de saúde para confirmar o problema no sobrinho de 8 anos. “Ele sempre teve (vermes), desde pequenininho, desde quando começou a andar. Percebo pelo rostinho abatido”, explica.

Reincidência

Apesar de Cecília ser rigorosa ao ministrar o medicamento, os vermes sempre voltam. “Eu falo para ele não andar descalço, mas ele é desobediente”, conta a tia. Ela e os irmãos passaram pelo mesmo problema na infância, resolvido somente após os 10 anos. A história se repete porque as condições na periferia não mudam, alerta o infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa. Portanto, mesmo medicada, a população está sujeita a contrair os vermes novamente.

De acordo com ele, moradores de regiões onde não há água e esgoto encanados são vítimas preferenciais. No entanto, os casos estão em queda no Estado de São Paulo porque, progressivamente, as condições de higiene estão melhores. “Não tenho números, eles são comentados em congressos. Mas também percebo isso no consultório”, informa.

A mesma percepção foi demonstrada pela infectologista Maristela Pastori de Oliveira, que também é do Serviço de Moléstias Infecciosas, órgão da Secretaria Municipal de Saúde. Ela não dispõe de informações quanto à distribuição de material especialmente confeccionado para alertar a população mais suscetível sobre problema, mas garante que o alerta sempre é dado pelos pediatras.

Mas para a psicóloga Vilma Sales, as orientações e o diagnóstico são negligenciados pela maioria dos médicos, especialmente quando o paciente é adulto. “Todos nós comemos em restaurante e estamos sujeitos, mas poucos médicos pedem exames. É comum eu receber criança irritadas, com comportamento mais agressivo. Quando a gente vai ver, é verme”, conclui.

* Nomes fictícios de uma história real

Comentários

Comentários