Internacional

Morales assume presidência da Bolívia

Por Fabiano Maisonnave | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

La Paz - Respaldado por um apoio popular histórico, Evo Morales assume hoje, em La Paz, a presidência da Bolívia com uma grande festa popular e sob os olhos atentos da comunidade internacional, representada por 11 chefes de Estado e cerca de 1.200 jornalistas estrangeiros. Mais de 200 mil pessoas são esperadas nas ruas de La Paz para a posse.

A expectativa é que ao menos metade dos simpatizantes venha do Interior do país. Serão colocadas nas ruas da Capital 1.200 bandeiras - metade da Bolívia e metade a Whipala, a bandeira aimara, etnia à qual Morales pertence. Todos esses números têm sido considerados recordes pelo governo e pela imprensa bolivianos.

Segundo a Chancelaria, por exemplo, antes de Morales, as posses presidenciais só haviam atraído, no máximo, cinco chefes de Estado. Morales conquistou a presidência ainda no primeiro turno, em 18 de dezembro passado, quando conseguiu 53,7% dos votos válidos. Foi o primeiro candidato a ganhar sem a necessidade de um segundo turno desde a redemocratização, no início dos anos 1980.

O mandato presidencial na Bolívia é de cinco anos, sem reeleição - como têm defendido, aliás, vários setores políticos brasileiros. A cerimônia de juramento e posse está marcada para ter início às 13h30 locais. No final da tarde, às 16h50, Morales deve deixar a área do Palácio de Governo e percorrer a pé as poucas quadras até a praça San Francisco, o local histórico de concentrações populares.

Diante da multidão, Morales fará a cerimônia de compromisso com a população. Segunda-feira, às 9h30, Morales dará posse ao seu gabinete - nenhum ministro, no entanto, havia sido anunciado até anteontem. Projetado para a política como sindicalista dos plantadores de coca, Evo, como os bolivianos se referem a ele, é o primeiro indígena eleito para o cargo máximo do país.

Internamente, a sua vitória faz parte de um longo processo de conquista de espaço político da população indígena boliviana, que representa cerca de 60% da população e a quase totalidade dos mais pobres do país.

No Exterior, o líder do MAS (Movimento ao Socialismo) é visto também como parte da onda de esquerda na América Latina, que inclui os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Ricardo Lagos (Chile), Néstor Kirchner (Argentina), Hugo Chávez (Venezuela) e Tabaré Vázquez (Uruguai) - com a exceção deste, todos confirmaram presença na posse.

Mesmo com a participação sempre histriônica de Chávez e a poucas semanas de deixar a Presidência, Lagos é quem tem mais causado expectativa entre os bolivianos, que já considera sua visita como histórica. Isso porque os dois países não têm relações diplomáticas desde 1979. O motivo é ainda mais antigo e data do final do século 19, quando a Bolívia perdeu o acesso ao mar para o Chile na Guerra do Pacífico.

Morales, que tomou a iniciativa de convidar Lagos, pediu, em entrevista coletiva na quinta-feira, que os jornalistas bolivianos “tratassem bem” o chileno. Os dois devem ter um encontro reservado de cerca de 30 minutos, segundo a imprensa local. Morales também conversará com o representante do governo norte-americano, o subsecretário de Estado dos EUA para a América Latina, Tom Shannon. Chávez terá a sua guerra particular, desta vez com o presidente peruano, Alejandro Toledo.

Os dois se encontrarão pela primeira vez desde que Lima decidiu retirar seu embaixador de Caracas após Chávez ter declarado apoio ao candidato nacionalista de esquerda peruano, Ollanta Humala. O pivô da crise, aliás, também estará na posse. “Neste domingo, em La Paz, ensinarei Hugo Chávez a cantar o hino do Peru”, disse Toledo na quinta-feira, em alusão à recente gafe do colega venezuelano.

Durante recente visita de Morales a Caracas, Chávez cantou um trecho do hino peruano e disse que era o da Bolívia. Já o presidente Lula deve ter uma presença discreta. Sua chegada está prevista para as 10h30 de hoje, com o retorno marcado para as 16h30. Não está previsto nenhum encontro bilateral. E a grande ausência será a do cubano Fidel Castro, que cancelou sua participação anteontem.

Morales é admirador confesso de Fidel -sua primeira visita após a vitória eleitoral foi à ilha caribenha. Quem também ficou de fora foi o presidente mexicano, Vicente Fox, com quem Morales não tem boas relações. Por outro lado, foi convidado o subcomandante Marcos, chefe da guerrilha zapatista no Estado de Chiapas e que agora promove uma turnê de motocicleta pelo México. A sua presença não havia sido confirmada até anteontem.

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