Um passo adiante do portal de entrada do antigo Asilo-Colônia Aymorés, atualmente Instituto Lauro de Souza Lima, bastava para exterminar qualquer possibilidade de felicidade. Para trás, lembranças da família, dos amigos e os sonhos. Na época, não fazia sentido imaginar que, décadas depois, ex-pacientes elegessem o prédio como local ideal para morar. Mas aconteceu.
Marfisa Conceição de Melo Carvalho fez o caminho de volta na companhia do marido, que conheceu na colônia. Saiu de lá para casar-se com ele. Juntos, voltaram para criar os filhos num ambiente tranquilo. Curioso, o retorno não foi imediato como a internação compulsória um dia enfrentada. Ao contrário, foi conquistado aos poucos. Dois anos se passaram até que o casal concluísse a reforma da casa na colônia.
Hoje, até apreciam o endereço, antes comparado a uma lápide. “Vir para cá foi uma morte para mim. Perdi o que eu tinha de melhor: pai, mãe, parei de estudar, a liberdade. O sofrimento foi me traumatizando e eu fui perdendo minhas mãos”, relembra Marfisa. A história de renúncias impostas ainda a emociona. Bem articulada, aprendeu a lidar com a revolta e a dor. Cercada por marido e filhos, descobriu que poderia recuperar a felicidade.
“É bom morar aqui. Está perdendo o aspecto de leprosário. É bom para meus filhos. Aqui sou igual aos outros”, conta. O mesmo sentimento, manteve na colônia Walter Montagnini. Aos 75 anos, ele tem certeza que além dos muros do Insituto Lauro de Souza Lima voltará a ser discriminado por ter seqüelas da hanseníase.
Discriminação
Apesar de ter recuperado o gosto pela vida, cujos melhores momentos foram vividos ao lado de uma companheira, não esquece o apelo de uma irmã feito há cerca de meio século. Ela lhe teria pedido para não voltar mais a Franca, de onde é natural, para não envergonhar a família. A intolerância o feriu tanto na pêle quanto a própria doença, reconhece. “Pode ser o homem mais forte que for, que pede para morrer”, conta, ao referir-se à dor.
A segregação, no entanto, não foi a responsável pelo retorno de outra família à colônia do “Lauro”, informa Maria Elena Cescato Pelegrini, assistente social responsável pelo ambulatório e pelo setor social, onde residem os pacientes. Desta vez, a válvula propulsora foram as precárias condições sociais.
O retorno foi possível porque a diretoria do Instituto Lauro de Souza Lima desenvolveu projeto para recolher de volta ex-pacientes atualmente em situação de penúria. De acordo com o diretor técnico do Instituto, Marcos Virmond, foi instituída uma comissão paritária, responsável por identificar os casos. Entre sete e oito pessoas precisavam de alguma atenção social, explica.
“Quando uma pessoa deixa a casa (da colônia), a idéia é mantê-la fechada até que surja uma necessidade”, informa. É facultado o retorno somente aos ex-pacientes que enfrentam dificuldades socioeconômicas.
Cobrança
Apesar da estrutura oferecida pela colônia, a ex-paciente e atual moradora do local Marfisa Conceição de Melo Carvalho cobra novos investimentos em pesquisa contra a hanseníase. Para ela, o Instituto Lauro de Souza Lima deveria transformar-se num grande câmpus universitário, que garantisse emprego e boa remuneração aos novos profissionais. Segundo ela, a medida seria necessária porque, sem incentivo, os novos dermatologistas migram para áreas mais atrativas financeiramente.
Entenda a doença
• A hanseníase é uma doença crônica, causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Se não for diagnosticada na fase inicial, pode causar deformidades ou mesmo amputação de membros
Como tratar
• A hanseníase tem cura. Depois de confirmar o diagnóstico, o paciente é submetido a um tratamento com remédios (poliquimioterapia), que são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mas para garantir a cura da doença é fundamental seguir à risca as recomendações médicas. Interromper o tratamento antes da hora pode agravar a doença.
____________________
Estrutura
A colônia do Instituto Lauro de Souza Lima é composta por 53 casas, construídas na década de 40. Cinco estão desativadas. Atualmente, 74 pessoas, sendo 35 remanescentes das décadas de 40 e 50, vivem nas moradias - divididas entre a familiar e o pavilhão.
No primeiro caso, explica o diretor técnico do Insituto Lauro de Souza Lima, Marcos Virmond, as residências são geminadas ou unifamiliares. Já o pavilhão tem média de dez quartos (para até duas pessoas cada). O prédio tem banheiro coletivo e área comum como sala de televisão e cozinha. A população mais idosa ainda dispõe da prerrogativa de morar numa unidade de enfermaria geriátrica, com atendimento 24 horas.
Independentemente da idade do morador, ele faz quatro refeições diárias e recebe assistência médica. Mesmo assim, os moradores reclamam da escassez de programas culturais na colônia. Com o intuito de contornar o problema, Virmond deve procurar a Secretaria Municipal de Cultura para estudar uma programação que possa agradá-los.
Mas alguns moradores também se queixam do descuido com as praças e da dificuldade de transitar nas ruas de paralelepípedos.
____________________
História
O Instituto Lauro de Souza Lima foi criado em 1933 como Asilo-Colônia Aymores, época em que portadores de hanseníase eram excluídos do convívio social. Na ocasião, 64 municípios da região de Bauru se cotizaram para fundá-lo. Internadas compulsoriamente, 1.400 pessoas chegaram a morar no asilo-colônia, na década de 40. A área ganhou feição de cidade, embora mantivesse o clima de leprosário. Segregados, pacientes permaneciam na colônia onde recebiam tratamento médico e trabalhavam.
A área dispunha de igreja, cinema, cassino, quadras esportivas, quiosques, praças, fábricas de colchões e de refrigerante, local reservado para atividades agropecuárias e até cadeia.
Em 1949, o asilo foi transformado em sanatório. Vinte anos depois, passou a se chamar Hospital Aimorés de Bauru. Em 1974, recebeu o nome de um dos grandes hansenologistas do Brasil e tornou-se o Hospital Lauro de Souza Lima. Atualmente é considerado um centro de referência em pesquisas dermatológicas.