Geral

Entrevista da semana: Duda: no ar, o professor debatedor

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 12 min

Empresário e educador Gerson Trevizani, o popular professor Duda, também tem mostrado suas virtudes como comunicador. Em entrevistas diárias durante o Enfoque 31, programa veiculado na TV em que é um dos proprietários, a Preve, Duda discute assuntos ligados a Bauru e região, abrindo um canal democrático de opinião e debate voltado à diversas correntes políticas, filosóficas, culturais, sociais e religiosas. Seu bom desempenho como entrevistador já lhe rende até a “fama” de ser a pessoa que mais debate a cidade e a região na “telinha”, uma paixão que, ao lado da leitura, ele classifica como uma “cachaça”.

Em entrevista ao JC, além de sua atividade como “homem de TV” - esmiuçando o processo de preparação das entrevistas e curiosidades ocorridas durante as mesmas -, Duda revela detalhes até então desconhecidos por muitos de sua vida pessoal, como a curiosa origem de seu apelido, a atuação como químico em uma fábrica de desinfetantes montada por ele e a convivência com a família e amigos.

Duda também fala de um de seus assuntos preferidos, a política, área em que confessa quase ter cedido às tentações para candidatar-se a deputado e analisa o governo Tuga, administração que ele elogia mas também não poupa críticas. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

JC – O senhor não se chama Eduardo, mas tem o apelido de Duda. Como ganhou esse apelido?

Duda – Nasci em um sítio e meu pai tinha um caseiro chamado Eduardo cujo apelido era Duda. Me contam que eu era bebê de dois, três meses e só queria ir no colo desse cara. Aí começaram a me chamar de Dudinha e eu o via e chorava para ir no colo dele. Tem pai conversando comigo que fica chateado de me chamar de Duda e me chama de Eduardo, mas não tem nada a ver com esse nome. Quando entrei no primário, com seis, sete anos, não sei porque achava que meu nome era Gelson, com L. Minha família me chamava de Gelson e meus pais, quando foram me registrar, era para ser Gelson mas o cartório colocou Gerson, com R. E no primário a professora chamava um por um, no primeiro dia de aula, e quando chegou minha vez falei que era Gelson. Ela me corrigiu e disse que era Gerson. Tive uma crise existencialista ali com seis anos de idade (risos), mas fui Duda a vida inteira. Todo mundo me chama assim.

JC – Já está quase incorporado ao nome, como o Lula?

Duda – É. Só meus genros me chamam de “seu Duda”, pois não dou muita liberdade para eles para não maltratarem minhas filhas (risos).

JC – Qual sua formação profissional e intelectual?

Duda – Fiz três faculdades. Primeiro de Química, depois a de Ciências Físicas e Biológicas e por último a de Pedagogia.

JC – Todas fora de Bauru?

Duda – Sim. Fiz Química em Ribeirão Preto, Ciências Físicas e Biológicas em Botucatu e Pedagogia em Monte Aprazível, já em um curso livre, pois deixei de ser professor de Química para virar diretor de escola e aí fui buscar os registros de pedagogo e os direitos para lecionar sociologia e psicologia educacional.

JC – A carreira começou como professor?

Duda – Sim. Fiz Química para ser químico de indústria. Trabalhei na Sambra um ano como químico, montei uma fabriquinha e comecei a fabricar desinfetantes de banheiro. Mas faltou um professor de química em um colégio estadual, foram me chamar para dar aula e entrei por acaso nessa profissão. Comecei a dar aula e no final do ano me escolheram para ser paraninfo de turma. Gostei disso e depois fui fazer Ciências Físicas e Biológicas para complementar minha formação de bacharel. Daí montei a escola e, para isso, tinha de assinar como diretor. Então fui buscar a Pedagogia.

JC – Como surgiu o interesse pela comunicação?

Duda – Na minha época de colegial. Em Pirajuí, no instituto de educação, tinha um jornal interno e escrevia nele. Depois, quando fui para Ribeirão Preto fazer faculdade, fundei o jornal de química da instituição, que se chamava A Retorta. Foi uma seqüência e algo inerente ao fato de sempre gostar de ler jornais, revistas e livros. Quando se começa a escrever, na fase jovem, gostava de fazer poesias e era como se estivesse criando alguma coisa. Isso foi gerando uma paixão, de virar uma cachaça, um vício e uma necessidade.

JC – E como o senhor tornou-se diretor de jornal em Bauru?

Duda – Entrei por acaso. Era época áurea da escola e o Moussa Tobias me chamou um dia para formar um grupo para assumir o Diário de Bauru. Assumimos uma massa falida com dívidas eternas, mas devagar as pessoas foram saindo de campo e sobrando uma coisa para o grupo Preve muito grande. Desenvolvemos o jornal, transformando-o em colorido e marcando uma época como jornal de qualidade, mas quando os parceiros não honraram com os compromissos de investimento e o grupo Preve tinha de arcar em uma sociedade com sócio que não queria sair mas não colocava dinheiro, estabeleceu-se um impasse terrível.

JC – E como nasceu a paixão pela televisão?

Duda – Ela surgiu porque senti que seria uma ferramenta importante para o grupo que está em 12 cidades com suas escolas. E na TV, na hora de uma entrevista, você tem de fazer a pessoa falar e não tem de fazer juízos. Tem de ter a inteligência rápida para fazer a pessoa liberar a alma e quem vai julgar é o telespectador. Minha preocupação é surpreender o entrevistado, às vezes até elogiando, e na seqüência perguntar algo para revelar realmente os traços de sua personalidade. E, quando a pessoa está enrolando, você não precisa falar que está enrolando, pois o telespectador está vendo isso. A televisão é um jornalismo muito mais puro, pois quem julga é quem está assistindo.

JC – E como o senhor se prepara e escolhe os assuntos para as entrevistas?

Duda – Acompanho a história de Bauru há uma vida inteira e, modéstia à parte, conheço bem a história da cidade, quem lutou aqui, os bastidores. Além disso, uma escola como a minha que tem desde o infantil até as faculdades possui toda a produção intelectual dentro dela. Já as de Bauru, de modo geral, são feitas bem empiricamente. E partimos da seguinte premissa. Gente importante é gente daqui e da região. Técnico importante para nós é o do Noroeste, e não do Real Madrid. Prefeito importante é o Lençóis, Agudos e não o de Nova Iorque. É uma TV que se propõe a fazer a integração regional.

JC – O senhor já passou por alguma “saia-justa” durante as entrevistas ou se lembra até hoje de uma história inesquecível que tenha ocorrido?

Duda – Saia-justa nunca porque procuro não contestar o entrevistado e sim fazer com que ele mostre o que ele é. Se estiver contando mentira, deixo ele falar e dou um jeito de fazer com que percebam que está contando mentira. Mas história inesquecível tenho sim e foi com o Paulo Maluf, um expert em responder só o que ele quer.

Estava louco para perguntar para ele se ele era corrupto e fiquei pensando em como fazer isso. Virei para ele e disse-lhe que embora ele nunca tenha sido condenado em instância final, e naquela época ele era governador e ainda não tinha sido, os adversários dele teimavam em chamá-lo de corrupto. Perguntei então se ele era corrupto. Ele virou e disse: “Professor, eles falam isso porque construí a Imigrantes, o túnel Ayrton Senna...” e ficou meia hora falando das obras dele, dominando a entrevista e emendando no final: “É por isso que me chamam de corrupto professor. Essas pessoas não trabalham como eu e ficam falando essas besteiras de mim”.

JC – E como é o Duda atrás das câmeras? Como o senhor concilia as tarefas de empresário na área de educação das de empresário da área de comunicação?

Duda – Tenho uma compulsão pelo trabalho. Chego cedo na escola e vou embora para casa só às 22h. É um exagero de atividades. Mas fico na escola de manhã - tenho unidades em 12 cidades - com telefone em uma sala e não saio até às 11h30. Minha entrevista normalmente começa às 12h20, mas impreterivelmente, às 11h30, vou para o jornal na TV e, quando estou lá, por uma questão de disciplina, esqueço que existe a escola e meus problemas empresariais.

JC – E sobra tempo para a família?

Duda – Sábado e domingo é para a família. Paro de trabalhar no sábado de manhã e fico até domingo à noite com a família. Não vou a lugar nenhum e pode estar o governador do Estado em um evento que não vou.

JC – E o que o senhor gosta de fazer em casa?

Duda – Minha cachaça é a leitura. Gosto também de jogar paciência com baralho.

JC – Ao analisar o primeiro ano do governo Tuga, o senhor já manifestou que, mesmo tendo enfrentado diversos problemas com dívidas, não o considerou como um bom administrador. Por quais razões?

Duda – Não achei que ele foi bom nem ruim. Acho que ainda não deu para ver.

JC – Então o senhor acha que o Tuga ainda não mostrou a que veio para a cidade?

Duda - Acho. Ele só mostrou que é um cara sério, bem intencionado e que escolheu bem o secretariado. A receita da cidade é muito pequena e ele não conseguiu ainda engatilhar nada, pois os grandes problemas de Bauru, como o tratamento de esgoto, a dívida da Funprev e essa rídicula ponte do Mary Dota, ainda não foram respondidos. Acho que ele é extremamente bem preparado e honestíssimo que tem tudo para ser um bom prefeito, mas ainda não mostrou nada devido aos vários problemas que a cidade enfrentou e está enfrentando financeiramente.

JC – Apesar de gostar muito do assunto, o senhor nunca ingressou em partidos políticos? Já teve vontade?

Duda – Já tive vários convites. Quando o Pedro Tobias foi candidato a deputado pela primeira vez, o projeto era do Moussa Tobias. O Moussa, o Marcelo (Marcelo Borges, vereador) e o Pedro me chamaram e queriam que o Pedro fosse para estadual e eu saísse para federal, pois tenho escolas em 12 cidades e na região, na época, era mais conhecido que o Pedro. O Moussa me provou que estaria eleito, mas eu com escola em 12 cidades e com o Diário de Bauru enfrentando diversos problemas financeiros e, na eventualidade de eu ganhar, teria de ir para Brasília, o que não poderia de jeito nenhum. Só militei em política antes da Revolução de 1964. Participei ativamente da eleição do Luciano Lepéra, que era comunista em Ribeirão Preto, mas depois da revolução nunca mais pertenci a nenhum partido político.

JC – Apesar de gostar muito do assunto, o senhor nunca ingressou em partidos políticos? Já teve vontade?

Duda – Já tive vários convites. Quando o Pedro Tobias foi candidato a deputado pela primeira vez, o projeto era do Moussa Tobias. O Moussa, o Marcelo (Marcelo Borges, vereador) e o Pedro me chamaram e queriam que o Pedro fosse para estadual e eu saísse para federal, pois tenho escolas em 12 cidades e na região, na época, era mais conhecido que o Pedro, diferente de hoje quando ele é uma unanimidade na região. O Moussa me provou que estaria eleito, mas eu com escola em 12 cidades e com o Diário de Bauru enfrentando diversos problemas financeiros e, na eventualidade de eu ganhar, teria de ir para Brasília, o que não poderia de jeito nenhum. Só militei em política antes da Revolução de 1964. Participei ativamente da eleição do Luciano Lepéra, que era comunista em Ribeirão Preto, mas depois da revolução nunca mais pertenci a nenhum partido político.

JC – Por vontade própria ou desilusão com a política?

Duda – Para poder ter liberdade e ter algo hoje como a TV Preve é. Acho que a sociedade tem de ser pluralista, pois quanto mais ela for assim mais segurança teremos. É preciso ter as diferenças individuais para que todo mundo tenha oportunidades iguais e os mais competentes ocupem os melhores cargos na sociedade. Sempre acreditei nisso e, em uma certa fase, tive uma formação socialista muito grande, assistia as reuniões do Partido Comunista em Ribeirão Preto e fui filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 1962. Tinha tudo para ser político e todo mundo achava que seria. Se pegar os alunos meus da época de faculdade e falar que hoje sou empresário, eles não acreditam.

JC – Se alguém o convidasse amanhã para disputar como deputado o senhor não aceitaria?

Duda – Não. Já tive uma chance muito grande de ser eleito, mas não disputar foi a opção final de minha vida.

JC – Até porque o senhor já desempenha um papel político importante promovendo debates na TV...

Duda – Acho que sou um líder da sociedade civil que, no Brasil, não sabe se representar. Nos Estados Unidos, se o presidente de um sindicato dos caminhoneiros quer falar com o presidente da República, ele fala mais rápido que o presidente do Senado, pois é uma sociedade que respeita os direitos individuais. Acho que a maneira de mim prestar um serviço à coletividade, além de ter mais de 1 mil empregados à frente de grandes escolas, é estar à frente de uma televisão que se propõe a ser pluralista. Temos de estar de acordo com a notícia. Não posso colocar alguém lá que não seja notícia e que ache isso porque sua bandeira é diferente. Temos obrigação de mostrar para sociedade todas as correntes que se articulam nela, sejam elas políticas, sociais, filosóficas, religiosas, etc.

____________________

Perfil

Nome: Gerson Trevizani

Data de Nascimento: 26/03/1943

Naturalidade: Pirajuí (SP)

Idade: 62 anos

Estado civil: Casado, seis filhos

Profissões: Empresário e Professor

Hobby: Leitura

Livro que está lendo: O Monge o Executivo

Time do coração: Palmeiras

Cor preferida: Azul

Para que ou quem daria nota 10: Sebastião Paiva, a cultura do arquiteto Jurandir Bueno, Tio Gastão (Centrinho) e Moussa Tobias.

Para que ou quem daria nota 0: Para os buracos de Bauru.

Comentários

Comentários