Semelhante aos montanhistas conquistadores dos picos mais elevados do planeta, os pichadores enfrentam verdadeiras escaladas para deixar a sua marca em prédios, viadutos e locais de difícil acesso. A infração, considerada crime ambiental, quando é praticada por menores de idade resulta em reparação de danos. Porém, na última quinta-feira, em reunião com a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, sugeriu uma nova modalidade de reparação, que pretende deixar a cidade com um visual mais limpo. A idéia é mudar a sanção e incluir no Programa de Prestação de Serviços à Comunidade. “Durante um período mínimo de seis meses (8 horas semanais) o jovem irá pintar prédios pichados”, sugere o juiz.
Segundo ele, atualmente, somente a reparação de danos não oferece resultados significativos. “Geralmente, ele picha 50 muros e é pego uma vez. Ele sai no lucro”, comenta. Com o argumento dos próprios jovens, que dizem: “eu picho porque tenho tinta na veia”, Maintinguer acredita que um programa nesse sentido poderá fazer com que o adolescente surpreendido na pichação passe um período recompondo a harmonia ambiental da cidade.
De acordo com informações do titular da Delegacia da Infância e da Juventude (Diju), Adib Jorge Filho, em Bauru, somente nos últimos três anos, 252 jovens foram surpreendidos na pichação, ato infracional que ocupa o terceiro lugar na lista dos mais cometidos pelos adolescentes, atrás apenas de lesão corporal dolosa e furto.
A sugestão do juiz encontrou apoio na assistente social Egli Muniz, Titular da Sebes, secretaria responsável pela elaboração do projeto. “A medida realmente proporcionará um processo educativo para o jovem. Hoje a cidade está muito suja e isso contribuiria para embelezá-la também”, diz a titular da Sebes.
Atualmente, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Crea) da Sebes, conta com 32 adolescentes cadastrados no Programa de Prestação de Serviços à Comunidade. “A nova proposta terá um custo. Vamos encaminhar o projeto ao Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente e propor o financiamento do material ao Fundo Municipal (da Criança e do Adolescente). De repente, essa aptidão do jovem pode ser aproveitada de várias formas. Alguns fazem verdadeiras obras de arte”, reforça a secretária da Sebes.
Ela já adianta que pretende firmar uma parceria com a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) na condução do projeto. “A demanda irá aumentar bastante e teremos que fortalecer a equipe”, reforça. A partir da reunião com o responsável pela Vara da Infância e Juventude, uma das sugestões seria a pintura do imóvel danificado, de prédios públicos e outros que sejam indicados. “Iremos elaborar alguns critérios”, adianta Egli Muniz.
Paquera nas alturas
Eles usam rolinhos e tinta latex, spray e até mesmo tinta para sapatos (Nugget) para pichar os locais mais surpreendentes e, é claro, os muros e paredes recém-pintados. “Quando eu vejo uma parede pintadinha, dá uma coceira na mão. A vontade é pichar, não importa a hora do dia. Às vezes a emoção é desenhar em plena luz do dia, sem que ninguém perceba”, diz um pichador, que não será identificado pela reportagem.
Além do impulso, outros motivos levam os jovens à pichação. “Se você sobe e coloca sua marca em um prédio, o outro vai lá e quer colocar ainda mais alto. Quando mais difícil, mais arriscado, mais proibido, é mais legal. Você pega moral com os caras.” Reunidos em grupo, alguns pichadores contam suas histórias. “Vixe, para fugir da polícia, já cai no rio e sai nadando. Perdi até o meu chinelinho”, recorda o garoto. Outro diz que até já levou uma “tinta na cabeça” quando foi surpreendido pelo dono da casa.
Mas um dos principais motivos para a prática da pichação é surpreender o sexo oposto. “As minas pagam pau para os pichadores. Elas gostam dos caras, porque são considerados ‘malandrões’. Normalmente, o cara picha em um lugar difícil e coloca a iniciais da mina”, comenta um dos meninos.
As letras, muitas vezes incompreensíveis aos leigos na pichação, fazem muito sentido aos praticantes. Eles também obedecem a um código de ética. “Pichar em cima de grafite, não pode. É mal e ninguém curte. Às vezes você vê uma pichação com ideologia, mas é difícil. Riscar um piche do outro, vixe, isso dá até briga. Só quando o cara ‘atropela’ o do outro, meio sem querer mesmo, aí tudo bem. Eles até deixam um recado: ‘Foi mal, não vi e atropelei’”, diz o pichador.
Para alcançar os locais mais difíceis, a pichação é feita em equipe. “Um fica ligado, embaixo, vigiando, enquanto os outros sobem. Um segura o outro para fazer as letras. Tem que ser rápido e cuidar para não cair.” Às vezes surgem alguns nomes famosos entre os pichadores, que ficam marcados nos muros da cidade. “Um dos caras é o Casca, que pichou a cidade inteira”, dizem.
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Pintura nova
A moradora da Bela Vista Meire Fiurst Gom, 44 anos, já esqueceu o número de vezes que picharam a sua casa. Há quatro anos, ela desistiu de refazer a pintura, o que garantiu ao seu muro uma infinidade de rabiscos, desenhos e escritos de várias tintas e formas. “A gente acaba de pintar, no dia seguinte o muro já está pichado”, diz.
Ela já chegou a surpreender a turma pichando seu muro em várias oportunidades. “Como é sobrado, a gente escuta o barulho, isso sem falar no cheiro de tinta”, comenta Meire. Em uma das ocasiões, a família abriu a janela, o que assustou a turma de jovens. “Eles saíram correndo, deixaram tinta e até um tênis. E não são apenas os meninos, sempre têm várias meninas com eles”, diz a moradora.
Bem humorada, Meire lamenta os gastos, mas principalmente a poluição visual da cidade. “Pintar ou fazer um desenho bonito, ninguém vem. Não é só em Bauru, tá em todo o Estado, mas é muito feio”, diz. Já uma empresa da cidade distribuidora de revistas adotou uma medida para evitar a pichação do muro. A direção colocou na parede um recado informando aos eventuais pichadores que se o muro permanecesse sem interferência, uma entidade social seria beneficiada mensalmente.
Segundo Ana Carolina Cayres, 28 anos, que trabalha na área de marketing promocional da empresa, a iniciativa deu resultados. “Antes a parede vivia com pichação, aí a Ana Teresa (Costanzo Cavaretto) teve a idéia de colocar um ‘recado’ na parede”, recorda. O texto apela para a sensibilidade dos pichadores, que há um ano poupam as paredes da empresa. “A cada mês doamos uma cesta básica para uma entidade diferente. Realmente, eles estão mais conscientes”, diz Ana Carolina.