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DNA desenha álbum de família dos gatos com 10,8 mi de anos

Por Reinaldo José Lopes | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Quem vê um bichano se espreguiçando no tapete da sala talvez não imagine, mas o gatinho é herdeiro de uma dinastia sanguinária e bem-sucedida de 10,8 milhões de anos, que se espalhou pelo planeta a partir de algum lugar da Ásia. Tal conclusão integra a mais completa árvore genealógica já traçada para os felinos, com a ajuda de genes e fósseis, na tentativa de resolver uma série de incertezas que ainda rondam a movimentada história do grupo.

Desse balaio de gatos brotam conclusões no mínimo inusitadas, pelo menos para quem não está familiarizado com o álbum de família dos bichanos. As onças-pintadas, por exemplo, podem ser os parentes vivos mais próximos dos leões, diz o estudo.

Já a onça-parda ou suçuarana, conforme outros trabalhos mostravam fazia tempo, não é onça coisa nenhuma, mas sim uma prima-irmã dos guepardos africanos, os mamíferos mais rápidos do mundo (costumam ultrapassar fácil a barreira dos 100 km/h).

Os dados, que ainda precisam ser refinados por novos estudos, são especialmente interessantes porque o quebra-cabeças da evolução de gatos e assemelhados não é dos mais triviais, apesar de ser muito estudado, conta o biólogo Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e do Instituto Pró-Carnívoros.

“O principal problema é que a diversificação deles aconteceu muito rápido. Não houve tempo para que se acumulassem muitas mutações (alterações no DNA) que nos ajudem a distinguir entre as linhagens”, diz Eizirik, um dos autores do estudo publicado na revista americana “Science” (www.sciencemag.org).

Além disso, a mera análise dos bichos vivos e de seu esqueleto pode deixar os pesquisadores num mato sem cachorro, porque fisicamente todos os gatos, grandes ou pequenos, são muito parecidos. “A impressão que dá é que eles atingiram um padrão de forma e comportamento no qual não dá para mexer muito”, diz ele.

Ataque ao genoma

Foi por isso que a equipe, liderada por Stephen O’Brien, do Laboratório de Diversidade Genômica do Instituto Nacional do Câncer (Estados Unidos), decidiu fazer um ataque abrangente às “letras” químicas do DNA de bichanos e afins.

Eles analisaram trechos de 39 genes -isso para cada uma das 38 espécies de felinos atuais. Depois, estimaram quando subgrupos e espécies individuais se separaram, com a ajuda de 16 fósseis cujas idades estão bem estabelecidas pelos paleontólogos. A impressão de uma diversificação “apressadinha” dos felinos é certamente confirmada pela análise.

Cerca de 600 mil anos -um espirro evolutivo - é o intervalo entre a formação de cada uma das oito grandes linhagens de gatos. “À primeira vista, o trabalho parece bem congruente. O grupo de O’Brien está na vanguarda da genética de felinos faz mais de uma década”, diz Ross Barnett, especialista em evolução molecular da Universidade de Oxford (Reino Unido).

A história começa na Ásia e se espalha para os outros continentes graças, muitas vezes, a mudanças no nível do mar. Na América do Sul, por exemplo, há sinais de que os bichos tenham feito pelo menos três entradas separadas.

“A diversificação da jaguatirica e seus parentes, que entraram primeiro, encaixa-se bem com o fechamento do istmo do Panamá”, diz Eizirik. Explica-se: até então (uns 3 milhões de anos atrás) a América do Sul era um continente-ilha.

Foi seu contato com o norte via Panamá que permitiu a chegada dos felinos. Depois teriam vindo as suçuaranas e, por último, as onças-pintadas. “Não sei se concordo com uma origem americana para as onças-pardas, já que os fósseis mais antigos estão na Europa”, diz Barnett.

Embora os dados indiquem que onças são os parentes vivos mais próximos dos leões, Eizirik diz que ainda é preciso elucidar melhor o elo. “O que está claro é que leão, onça e leopardo formam um grupo muito próximo, com os tigres mais longe.”

Quanto a bichanos domésticos, há pouca controvérsia: seus parentes mais próximos parecem ser os gatos selvagens africanos (Felis lybica), maiores e de pernas mais longas que a versão caseira. Outro mistério é as razões para a expansão aparentemente explosiva dos felinos. Talvez o desaparecimento de outros carnívoros tenha aberto espaço para eles.

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