Ser

Paixões malucas

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

“Franciele, Noroeste x Corinthias: Você roubou meu coração, quero ele de volta... eu, com camisa laranja, me liga!...”, diz trecho do anúncio publicado pelo auxiliar de produção Helil Rubens de Freitas Colacino, 25 anos, há poucas semanas na seção de classificados do Jornal da Cidade.

Para conquistar Franciele, com quem trocou olhares durante jogo de futebol realizada no estádio do Alfredo de Castilho no último dia 13, ele não mede esforços. E sem medo de declarar publicamente sua paixão, espera ansiosamente uma resposta da moça.

“Fui ao jogo com um amigo. Estava tomando cerveja quando a vi”, conta Helil. Foi paixão à primeira vista. “Seu jeito de andar e sorrir despertou alguma coisa diferente em mim. Foi um lance maluco mesmo”, revela. O interesse foi tão grande que Helil deixou a partida de futebol em segundo plano. “Eu estava no meio da Gaviões, mas quando olhava para ela, parecia que nem ouvia os gritos da torcida”, confessa.

Durante o intervalo do jogo, Helil se encheu de coragem e resolveu conversar com Franciele. Infelizmente, a investida não deu certo. “Quando decidi falar, ela já havia saído com as amigas que estavam do outro lado do estádio. Tentei sair mais cedo do jogo porque vi que ela tinha deixado o capacete próximo ao local onde eu havia deixado minha moto, mas ela já tinha partido”, lamenta.

Apesar disso, ele não perdeu as esperanças de encontrá-la novamente. “Estou pensando até em colocar outro anúncio”, diz.

Histórias como a de Helil encontram eco no coração de diversas pessoas. Entre eles, o auxiliar de ourives Elieberton Pereira e a auxiliar administrativo Adriana Cristina dos Santos. Embora não estejam mais juntos, eles são grandes amigos e guardam com carinho a experiência vivida no final do ano passado.

Elieberton conheceu Adriana em uma academia de ginástica da cidade. Passaram a fazer aulas juntos e o primeiro beijo não demorou muito para acontecer. Logo começaram a “ficar”. Na época, Elieberton estava apaixonado e resolveu declarar com todas as letras e sons esse sentimento à amada.

Em um carro decorado e ao som da música “Quer casar comigo?”, do Bruno e Marrone, entregou à Adriana uma cesta com chocolates, um coração de pelúcia e uma aliança de compromisso. “Ela entrou na minha vida de uma maneira rápida e eu gostei. Curti muito e por isso resolvi fazer essa loucura de amor. Na hora nem pensei se ela iria gostar ou não”, diz.

Elieberton teve sorte. Embora encabulada por causa da platéia que se formou ao redor do casal, Adriana gostou da surpresa. “Ele pediu para me chamar do meio da aula de ginástica. Quando saí, vi o carro e a câmera e pensei: ‘Não acredito!”. A academia inteira parou para nos ver, bateram palmas e pediram para que nós nos beijássemos”, diz.

“Fiquei emocionada e balançada”, revela ela. “Depois disso ficamos um tempo juntos, mas não aceitei a aliança de compromisso porque acho que isso é muito sério e deve ser bem pensado”, conta.

Como fazia pouco tempo que estavam “ficando”, Adriana resolveu devolver a aliança. Ela e Elieberton não firmaram compromisso, mas fizeram questão de selar uma amizade. “Foi-se o amor mas ficou uma grande amizade”, diz ele. “Somos amigos e nos falamos sempre”, reforça ela.

Final feliz

Já o casal formado pela auxiliar administrativo Eid Maria Andreotti Bertoni e Paulo Cezar Gonçalves, que trabalha no setor de cobrança de uma empresa da cidade, teve mais sorte. Uma loucura de amor feita pelo moço ajudou a fortalecer o namoro de seis anos.

Antes de casar com a amada, Paulo encheu a kitinete de Eid com 12 buquês de rosa, todos entregues no mesmo dia. “Fiquei admirada ao ver tantas flores. Foi uma loucura de amor mesmo”, conta ela. Romântico, o casal conta que nunca deixou de demonstrar sentimentos por meio de presentes e recordações.

“Sempre mando telemensagens para ele”, conta Eid. “Acho que isso faz parte de uma vida harmoniosa. É preciso ‘regar’ constantemente o relacionamento”, observa.

Surpreender e cultivar sentimentos são fundamentais para não deixar que o namoro caia na rotina, aponta o vendedor Décio Reis Neto. Romântico assumido, ele tem o hábito de enviar flores, mensagens e bombons constantemente à noiva. “Presenteio sem data específica. Toda mulher gosta disso. A Priscila adora”, diz.

Décio é um dos clientes de Isamar Regina Marin, proprietária de uma agência de telemensagens e cestas em Bauru. Há dez anos no ramo, ela destaca o grande movimento da empresa. E explica o motivo: “o romantismo nunca acaba”.

A maior parte da “freguesia” é formada pelos homens, aponta Isamar. “Elas costumam mandar mensagens em aniversários e comemorações de namoro e casamento. Eles enviam mensagens e presentes no dia-a-dia”, diz.

Segundo Isamar, parte dessa preferência masculina se deve à necessidade em expressar sentimentos. “Muitas vezes eles não conseguem traduzi-los em palavras. É como se fosse uma prova de amor”, diz.

Demonstrar sentimentos por meio de bombons e flores, por exemplo, é instrumento cultural e pode fazer parte do jogo da conquista, aponta a psicóloga clínica e terapeuta de família e casais Maria Ivone Marchi Costa.

“Há um aspecto cultural do homem galantear a mulher. Mandar flores é romântico e uma forma não-verbal de expressar sentimentos”, aponta Costa.

Nesse sentido, as loucuras de amor podem ter um caráter saudável e relacionado à personalidade lúdica do indivíduo apaixonado. “É uma pessoa romântica, com espírito criativo e que deseja mobilizar alguém muito importante para ela, de forma diferente. E isso está dentro dos seus recursos financeiros”, diz a psicóloga.

Por outro lado, quando os gastos com presentes extrapolam o orçamento, isso pode sinalizar um lado não muito saudável, ressalta ela. “A pessoa pode ter necessidades e impulsos e a forma de se relacionar com o outro pode se tornar obsessiva. E a obsessão pode se manifestar através de coisas grandiosas”, diz.

Nessa cenário, destaca-se ainda a questão da auto-estima e auto-imagem, explica Costa. “De repente, o indivíduo pode não se sentir bom o bastante para mobilizar a outra pessoa e aí usa as ‘loucuras de amor’ como um escudo”, pontua.

Comentários

Comentários