Ser

Hoje é dia de Marisa

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 10 min

É quase impossível acompanhar a performance da atriz bauruense Marisa Rosa de Oliveira e não se envolver com o clima lúdico e de encantamento que marcam seu trabalho. Qualquer semelhança com a pequena Carolina Oliveira, protagonista do seriado “Hoje é Dia de Maria”, não é mera coincidência.

Isso porque, além da aparência, sobrenome e figurino parecidos com os da atri-mirim, Marisa começou a atuar ainda na infância, aos 9 anos de idade.

Hoje, aos 28 anos e há quase duas décadas na estrada, ela se consagra como uma das principais representantes do teatro de rua e contação de histórias na cidade, herança deixada pelo pai, palhaço na Folia de Reis, e da mãe, que cantava cantigas de roda para ela e outros nove filhos.

Entre eles, Ezequiel Miranda, irmão e grande parceiro de Marisa nos palcos e na associação Drama e Folias, entidade que reúne profissionais das áreas de música, dança, artes plásticas e teatro. Criada há um ano, a associação tem como objetivo levar cultura para todos os bairros da cidade, explica Marisa, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

“Nossa luta é para que a cultura atinja todas as pessoas. Me preocupo em trabalhar para que as comunidades carentes tenham acesso direto ao teatro”, diz a atriz, mãe de Lucas, 8 anos.

Membro do Conselho Municipal de Cultura, Marisa revela que, apesar das dificuldades, não abre mão de seu trabalho como artista. E para isso, abusa da criatividade. Confecciona as próprias roupas, conta com o apoio dos amigos e “passa muito chapéu” durante os espetáculos de rua - tradicionalmente, para assistir a peça o público colabora, ou não, com qualquer valor; o dinheiro é colocado em um chapéu.

Na entrevista a seguir, a “tia Marisa”, como é conhecida pelas crianças ao contar histórias, apresenta sua própria história.

Jornal da Cidade - O que está fazendo atualmente?

Marisa Rosa de Oliveira - Faço trabalhos individuais e em grupo. Atualmente estou mais na área de contação de histórias. O público achou interessante esse caminho que usa adereços e bonecos nos contos para crianças e adultos. É a parte que mais me toca também.

JC - Como é o processo de criação dos contos?

Oliveira - Utilizo bases, fazendo adaptações a partir das histórias. Crio personagens e todas as formas de contar a história em cima dessa base. Na maioria das vezes é assim, mas há contos de minha autoria. Sempre me baseio em três contos, que é o tempo que separo para o trabalho ficar maior. Há uma introdução, cantigas e explicações sobre o autor. Na maioria dos projetos, conto a vida do autor que estou trabalhando para que as crianças saibam e entendam o que estão vendo.

JC - Quais são seus autores prediletos?

Oliveira - Isso é muito variado. Gosto muito do grupo Galpão, do Antônio Nóbrega, que tem uma linguagem interessante, e da Fernanda Montenegro, uma ótima atriz. Todos os papéis representados por ela são feitos de forma diferente. E aí que se percebe um grande trabalho de pesquisa.

JC - É possível apontar quantos trabalhos você já realizou, entre peças e contação de histórias?

Oliveira - Cerca de 30 espetáculos. São trabalhos apresentados na cidade e região.

JC - Qual é a experiência de atuar com seu irmão?

Oliveira - Ele é um excelente ator. Tem espetáculos que apresentamos e nem ensaiamos juntos. Nos entendemos somente pelo olhar. Somos muito ligados.

JC - O teatro é herança familiar?

Oliveira - Recentemente estava conversando com uma amiga e brinquei: ‘Por que eu fui nascer para fazer arte, por que eu só sei fazer isso?’ Já tentei fazer outras coisas mas sempre me “embolo”. O que sigo vem muito da tradição do meu pai e das cantigas que minha mãe cantava. Meu pai era o palhaço, um dos personagens principais da Folia de Reis.

JC - Então você teve apoio da família quando resolveu seguir a carreira teatral?

Oliveira - Não muito porque minha mãe acha a profissão difícil. Na verdade trabalho como autônoma e enfrento muitas dificuldades para conseguir montar um projeto. A preocupação dela é com o futuro, e não apenas o meu, como também do meu filho Lucas, que está crescendo. Pedir apoio ou vender um projeto é complicado.

JC - Essa é uma das principais dificuldades?

Oliveira - É difícil conseguir patrocínio. E agora mais ainda porque a companhia de Dramas e Folias se transformou em uma associação cultural.

JC - Qual é o objetivo da entidade?

Oliveira - A associação reúne diversas artes. Visamos fazer um trabalho social, dar cursos na periferia e desenvolver projetos para a comunidade. A entidade existe há um ano e inclui artes plásticas, música, teatro, dança e qualquer tipo de manifestação cultural.

JC - Além dos cursos, quais são os outros projetos da Dramas e Folias?

Oliveira - Além das oficinas, nossa luta é para que a cultura atinja todas as pessoas. Cada região da cidade precisa ter um ponto, um espaço para a cultura. É isso que me preocupo: trabalhar para que as comunidades carentes tenham acesso direto ao teatro.

JC - Suas apresentações se caracterizam pelo encantamento. Isso ajuda a trabalhar com crianças? Por quê?

Oliveira - Tento fazer a peça da forma mais simples possível. Já virei até mito de uma menina que me viu em sua escola. Depois de ver uma peça ela chegou em casa, colocou um pano e disse para a mãe que era a Marisa e que estava apresentando a peça da Rapunzel. Aí a mãe ficou curiosa para saber quem eu era e a professora explicou que uma moça contava histórias na escola de sua filha. Isso foi muito legal. Resgatar cantigas e histórias de grandes autores é interessante porque desperta o encantamento que está perdido.

JC - Muitos dos seus trabalhos trazem inspiração mambembe. Você já participou de um circo?

Oliveira - Sim. Utilizo pirofagia, malabaris e trapézio em alguns trabalhos. Fiquei um tempo no circo-escola Picadeiro. Não cheguei a me apresentar, mas fiquei fazendo cursos com pessoas que trabalham circo. O picadeiro foi uma grande fonte de pesquisa para mim.

JC - Teatro de rua é seu ponto forte. Qual é a principal característica desse trabalho?

Oliveira - É uma interação direta com o público. A reação das pessoas é semelhante ao comportamento de uma criança: a pessoa que está assistindo gosta ou não. Se não gosta, vira as costas e vai embora. Nas peças, procuramos trabalhar com temas que tocam as pessoas. Agora estamos trabalhando com a “Ilha dos Sentimentos”, que fala da vaidade, saudade, amor e todos os sentimentos. O que marca é que o teatro de rua atinge diretamente o público. De repente, a pessoa está muito estressada depois do trabalho, assiste a peça e sorri. Isso é muito gratificante e vale mais do que qualquer outra coisa no mundo.

JC - Você cria seus próprio figurino?

Oliveira - Na verdade trabalho em cima do material que eu tenho. Utilizando uma roupa, por exemplo, crio uma manga especial e transformo a peça em um vestido diferente. Agora tenho uma máquina de costura e isso ficou mais fácil.

JC - Espetáculos de rua não trazem muito retorno financeiro. Como você e o grupo fazem para se manter?

Oliveira - “Passamos muito chapéu” fazendo algumas apresentações em escolas. Sempre trabalhamos com pouco, muito pouco. Acho que, se cada artista tivesse uma ajuda de custo, um salário mínimo, por exemplo, isso ajudaria porque é complicado. A realidade do artista, muitas vezes, é dolorosa.

JC - Você realiza diversos cursos para comunidades carentes. Como é sua relação com eles, especialmente com as crianças?

Oliveira - Sou a “tia Marisa” (risos). A relação é de muito carinho. Tem algumas crianças que hoje são moças e lembram que eu fiz teatro na escola delas. Chegam para mim, me reconhecem e falam dos meus trabalhos.

JC - Durante quase duas décadas de trajetória, que experiência você destaca como marcante?

Oliveira - Todas elas. Teve um dia no qual fui me apresentar em uma escola e um menino correu atrás de mim porque acreditou que eu era uma bruxa. Na peça, que contava a história da Rapunzel, utilizei um pano para simbolizar um bebê. E quando a bruxa apareceu para capturá-lo, o garoto pegou o pano e começou a correr na escola para me impedir. Ele acreditou que aquele pano era realmente uma criança. Aí tive que improvisar, joguei “um poder no garoto” e pedi para que ele ficasse parado. Usei outro tipo de psicologia e improvisação para que ele pudesse entender o que eu estava dizendo. Mostrei para o menino que era só uma história. Muitas vezes a criança se apega à fantasia, de repente por conta de carência familiar, amigos e relacionamentos. Por meio do teatro, as crianças acreditam e dão oportunidade para que eu me envolva com elas.

JC - Você é membro do Conselho Municipal de Cultura. É “politizada” dentro da área cultural?

Oliveira - Eu estou aprendendo, na verdade. Algumas pessoas dizem que eu preciso falar menos. Não concordo. A pior pessoa que existe é aquela que me trata de uma forma e depois fala mal. É um mal comportamento. E, às vezes, nessas situações, eu me afasto porque não consigo fazer a linha do “faz de conta”. Quando alguém tem algum problema comigo, prefiro que ela fale diretamente para mim, discutindo como podemos melhorar. Foi o que aconteceu em uma peça em homenagem a Cora Coralina: não fiz uma boa apresentação, estava chovendo, haviam poucas pessoas e a produção ficava me apressando devido ao tempo. E a pessoa que me contratou disse que o espetáculo não foi como ela gostaria. Mas depois, quando tive a oportunidade de mostrar a mesma peça ao ar livre e sem outras coisas me atrapalhando, ela se surpreendeu e disse que o espetáculo acabou com a impressão anterior.

JC - O “faz de conta” é exclusivo do teatro?

Oliveira - Sim. É engraçado porque conto histórias de fadas e, ao mesmo tempo, vivo a minha realidade. Como eu, os artistas precisam sobreviver, mas se não temos muitos recursos, acabamos fazendo arte do mesmo jeito. Há muitas dificuldades e todo ano fico pensando que as coisas vão mudar. Algumas coisas estão melhorando, mas isso não depende apenas da Secretaria de Cultura, mas também de outras secretarias, que precisam estar mais envolvidas com essa área. A cultura não trata apenas de teatro ou de bonecos e as secretarias de Cultura, Saúde, Meio Ambiente, Educação e Esporte deveriam fazer um trabalho interligado.

JC - Como você avalia o cenário cultural da cidade?

Oliveira - É necessário uma abertura maior, não restringir o espaço apenas a um grupo; não se pode pagar mais para uma companhia e menos para outra. É fundamental trabalhar mais com grupos locais, que melhoraram muito, apesar das dificuldades. Além disso, gostaria que as companhias locais fossem isentas da taxa, porque é uma luta para nós conseguirmos colocar público no teatro. Às vezes nos apresentamos só para pagar a taxa ou precisamos ficar “pedindo por favor” para não pagá-la. Isso me deixa desanimada. Gostaria que em Bauru houvesse maior abertura para a classe artística. Há uma tentativa, mas ainda existem as famosas “panelas”. Será que elas existem em todos os lugares? É preciso fazer a política da boa vizinhança para entrar nesse meio?

JC - Nem sempre...

Oliveira - Às vezes perco muito por ser direta, mas também não vou mudar meu modo de ser. Acredito na verdade e em tudo que se faz de verdade. Gosto de um provérbio chinês que diz: “cai sete vezes, levanta-te oito”. Somos uma gangorra. Não se sabe o dia de amanhã.

JC - Quais são seus planos para esse ano?

Oliveira - Voltar a estudar pedagogia e arrumar um trabalho com salário fixo que possa ser intercalado com o teatro.

Comentários

Comentários