Cheguei meia-hora antes para o encontro com a “boa senhora de cabelos grisalhos”. Estava ansioso diante da porta giratória que dá para o saguão de mármore dominado pela estátua pétrea de Adolph Ochs, raiz da dinastia judaico-americana de proprietários do jornal mais influente do mundo. Falo do New York Times. Quando soube que havia visitas guiadas para interessados em conhecer a famosa sede do jornal, não tive dúvidas em me inscrever. Fui recebido por um senhor de terno escuro, rosto severo, bigodes grisalhos e olhos azuis que espiavam a mim e mais uns dez visitantes através de óculos de aros de aço. No terceiro andar a primeira parada numa das redações com 60 ou 70 mesas arranjadas em fileiras. Naquilo que eles chamam de “curral”, os Timesmen. Os copidesques com o poder de vetar, cortar, ampliar ou reduzir os textos para publicação, mesmo se tiverem sido escritos pelos prêmios Pulitzer de jornalismo. O editor do Times não pensa duas vezes para tirar um anúncio a fim de abrir espaço para uma importante matéria de última hora. Há até um Departamento de Aceitabilidade de Anúncios. São rejeitadas publicidades consideradas enganosas, ofensivas a moral ou anti-patrióticas. “Todas as notícias dignas de serem publicadas” – é o slogan do jornal. Isso engloba notas de falecimento, noivados, entrevista com a Rainha Elizabeth ou com um anônimo cidadão do Bronx.
Nossa comitiva passou por escritórios bolorentos, salas apinhadas e corredores escondidos atrás de enormes estantes de livros. Quase seis mil pessoas trabalham na empresa, dos quais mil jornalistas e correspondentes em mais de uma centena das capitais. Em um pátio empoeirado jaziam abandonadas 900 linotipos, substituídas pela composição eletrônica. Eu era editor do Diário de Bauru e tentava, em vão, conseguir duas linotipos para reforçar o meu jornal. As mudanças tecnológicas custaram ao Times e aos jornais de Nova York 144 dias de greve. Os prejuízos foram tão grandes que, dos 13 diários sobraram três, um deles vespertino. Até o Daily Mirror soçobrou com seus 900 mil exemplares. Graças à sua própria fábrica de papel o NYT sobreviveu. Ganhava mais com o papel em branco do que impresso. As exigências do sindicato compreendiam, entre outras coisas, a reciclagem de todos os tipógrafos que deixariam de ter função; participação nos lucros gerados pelas novas tecnologias e diminuição da carga horária semanal para 35 horas. Em compensação concordou com o cancelamento dos 15 minutos a que os tipógrafos tinham direito, todos os dias, para fazer xixi.
Uma Comissão do Futuro havia sido formada (existe até hoje) para avaliar os efeitos que teriam as mudanças sociais e os avanços tecnológicos sobre os jornais nas décadas seguintes. Quais os hábitos humanos que iriam prevalecer e como o Times poderia enfrentar melhor os desafios desse novo cenário. Essa comissão é composta por jornalistas, sociólogos, pensadores, cientistas e assessorada por institutos de pesquisa.
Tudo previsto num jornal que, aos domingos, circulava com 1,6 milhão de exemplares, 558 páginas e 2 a 3 quilos de peso, inclusive uma revista encartada. Isso fora os tablóides especiais com letras grandes para pessoas com deficiência visual, tablóides com versão para estudantes, edição microfilmada para bibliotecas e universidades, e versões internacionais.
Quando escreveu O reino e o poder, Gay Talase disse que o “Times não é uma empresa, mas uma vocação”. Lá os donos tratam os empregados de “senhor”. O chefe que extrapola é encaminhado a um departamento médico com psiquiatras e psicólogos, para tratamento. As frustrações ocorrem quando os executivos, principalmente, percebem a verdade óbvia: eles são substituíveis. O jornal pode ser bem sucedido sem nenhum deles. Essa verdade provoca tristeza e amargura em muitas pessoas que amam profundamente o jornal, que o romantizaram e o personalizaram. Pensam nele como uma grande deusa cinzenta com quem estão tendo um caso, esquecendo-se de que, não importa quem sejam, ou quão eficiente tenha sido seu desempenho, em breve estarão velhos demais para ela, que não envelhece e vai querer homens novos, mais moços. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)