Nacional

Homicídios caem, mas seqüestros crescem no Estado de São Paulo

Por Gilmar Penteado | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

São Paulo - Depois de dois anos em queda, os registros de seqüestro tradicional, com cativeiro e pedido de resgate, voltaram a crescer em São Paulo em 2005. Pela primeira vez, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), admitiu ontem tendência de aumento. As estatísticas da Secretaria Estadual da Segurança Pública, divulgadas ontem, também apontam um recorde positivo em 2005: é o menor número de registros de homicídios dolosos (com intenção) de uma série de dez anos. Foram 7.276 mortes violentas, contra 10.447 em 1996.

De janeiro a dezembro do ano passado, a polícia registrou 133 seqüestros tradicionais - 21 a mais do em 2004. O quarto trimestre de 2005 foi o período no qual o crime mais cresceu. Foram 42 registros, contra 29 no mesmo trimestre do ano anterior. Na soma dos números de 2005, o seqüestro só não cresceu na Capital paulista.

O Interior é a região que mais preocupa - de 21 casos, em 2004, para 39 casos. Nas estatísticas do quarto trimestre de 2005, no entanto, o seqüestro cresceu em todas as regiões do Estado. Em outubro do ano passado, quando as estatísticas criminais já apontavam crescimento dos registros de seqüestro, o governo negou tendência de aumento e afirmou que os números estavam em uma “faixa aceitável”.

Anteontem, porém, Alckmin afirmou que o crime voltou a ser um problema. “É um trabalho que nós vamos ter de fazer a mais. Analisando caso a caso, não indica que sejam grandes organizações criminosas. É um trabalho permanente”, disse ele, ao ser questionado sobre o aumento nos índices desse tipo de crime.

O pico do número de seqüestros em São Paulo ocorreu em 2002, com 321 casos. Naquele ano, o secretário da Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, prometeu diminuir essa taxa para dez seqüestros por ano. Nos dois anos seguintes, o governo paulista conseguiu baixar os números - 118 casos em 2003 e 112 em 2004. Mas os registros voltaram a crescer, puxados pelo Interior de São Paulo. “Houve um acréscimo, vamos dizer assim, percentualmente insignificante. Mas, em números reais, existe”, admitiu ontem Abreu Filho, mais cauteloso que o governador.

O secretário aponta o início de um novo fenômeno de banalização do seqüestro tradicional, com a participação de bandidos sem experiência nesse tipo de crime, pedindo valores de resgate menores e a vítima ficando menos tempo em cativeiro. A banalização foi uma das explicações usadas pelo governo para o recorde de registros em 2002. Mas agora, segundo Abreu Filho, existe uma relação direta com os casos de seqüestro relâmpago - nesse crime, a vítima é obrigada a sacar dinheiro ou fornecer senhas de contas bancárias.

Em muitos casos, sem poder sacar o dinheiro no banco, o ladrão leva a vítima para um cativeiro improvisado e pede o dinheiro do resgate para a família. Com isso, o que começou como seqüestro relâmpago - tipificado como roubo, segundo interpretação do Código Penal pela polícia - torna-se seqüestro tradicional. “Você pega os valores de resgate. Foram R$ 8 mil, R$ 1.500,00, R$ 1.000,00. Não é coisa de crime organizado”, afirmou o secretário. A média de tempo do refém em cativeiro, por exemplo, teria caído de 11 dias para sete dias nos casos registrados no quarto trimestre de 2005 em relação ao terceiro trimestre do mesmo ano.

Os valores pedidos de resgate pelos seqüestradores também caíram - a polícia afirma que a diferença entre o valor pedido e o valor pago pela família é muito grande. A maior parte dos seqüestradores exigiu valores na faixa dos R$ 350 mil. Antes, essa faixa ficava em R$ 550 mil. A secretaria não calcula a média dos resgates pedidos porque, segundo ela, os valores mais altos poderiam distorcer esse cálculo. Segundo Abreu Filho, em mais de 50% dos seqüestros não há pagamento de resgate.

As estatísticas criminais desde 1996 - quando as ocorrências passaram a ser organizadas e divulgadas trimestralmente pelo governo paulista- apontam uma redução gradativa na participação da Capital paulista no total de casos de seqüestros. Naquele ano, 58,33% dos seqüestros ocorreram na Capital.

Em alguns trimestres de 1997 e de 1998, a cidade de São Paulo concentrou 100% dos casos registrados no Estado. Em 2005, no entanto, 51,12% dos 133 seqüestros ocorreram na Capital. É o menor percentual desde 1999. A participação do Interior paulista - região que também abrange o litoral, segundo distribuição territorial feita pela própria secretaria - sobre o total de casos registrados cresce a cada ano.

Em 2004, 18,75% dos seqüestros ocorreram no Interior. No ano passado, no entanto, esse percentual cresceu para 29,32%. Segundo a polícia, Campinas seria a região mais problemática.

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Tendência

São Paulo - A queda no número de homicídios em São Paulo segue uma tendência do que ocorre no restante do País. De 2004 para 2005, houve uma diminuição de 18,56% desse tipo de violência no Estado, chegando a 7.276 em números absolutos - o menor desde 1996, primeiro ano possível de ser comparado estatisticamente. Nacionalmente, a queda pode ser observada em relatório do Ministério da Saúde.

O estudo mostra que, entre 2003 e 2004, o número de mortes por arma de fogo no Brasil caiu 8%. Segundo o trabalho, o homicídio representa 90% desse tipo de ocorrência. Outro estudo, do IBGE, aponta recuo de 6% no número de mortes violentas entre 2002 e 2004. “A queda é nacional, mas parece que o ritmo em São Paulo está mais acentuado”, diz Renato Lima, coordenador do núcleo de pesquisas do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim) e chefe da divisão de estudos socioeconômicos do Seade.

Especialistas afirmam que a ação da sociedade civil, em complemento a políticas governamentais, como a Campanha do Desarmamento, são as causas da diminuição. Lima cita cursos de capacitação oferecidos pela gestão estadual e a atuação da Senasp, que auxilia o financiamento dos Estados. A assessora de projetos do Instituto São Paulo contra a Violência Adriana Loche acrescenta, no âmbito governamental, a atuação das guardas municipais. E sobre a atuação da sociedade civil, Loche cita como exemplo o disque-denúncia de seu instituto, que recebeu 97.335 chamados no ano passado. “Assim, consegue-se evitar as causas dos homicídios.”

O governador Alckmin atribui a diminuição à presença policial nas ruas, serviço de inteligência e a prisões.

Folhapress

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