Vamos aos fatos. Muitas carroças nas ruas conduzidas por menores de idade, carroceiros paupérrimos, truculentos e insensíveis quanto ao sofrimento do animal, cavalos explorados e sofridos, enfim, um quadro de maus tratos e exclusão social. E a sociedade, como reage a isso? Marasmo total, cegueira, oportunismo, egoísmo, insensibilidade, cinismo. Ninguém fala ou escreve sobre o assunto. “Ora, imaginem, com tantos problemas, vamos nos preocupar com animais?!” Será que a elite abastada do País não sente uma pontada no cérebro quando vê um cavalo açoitado, preso a uma carroça pesada, e um condutor pobre e miserável?
E os carroceiros, o que dizem por judiarem do cavalo? “O bicho é meu e com ele faço o que eu quero, esse é meu ganha-pão.” Ilusão pura, desde quando esse trabalho garantiu ascensão social e salário decente a alguém? Via de regra, nunca! E os veterinários, não se manifestam e ajudam o bicho? Lógico que não, se eles são os primeiros a mutilarem cachorros, cortando seus rabos e orelhas para fins estéticos, infringindo a lei 9.605, de 12/fev./1998, que proíbe maus tratos e mutilação.
De repente, uma luz, puseram o dedo na ferida, em um artigo crítico e instigante de Sônia Joaquim e Vânia Daró (JC-15.12.5). Abordaram os vários lados dessa espinhosa questão, com lucidez e coragem, inconformadas com a miserabilidade/ignorância dos carroceiros e o sofrimento dos animais.
Embora em out./2005, uma reportagem do JC tenha divulgado a tentativa da prefeitura de regularização da atividade, acredito que a matéria acima deva ter desencadeado a polêmica. Em janeiro de 2006, manifestações e iniciativas se seguiram por parte de algumas secretarias municipais, como cadastramento de carroceiros e organização da coleta seletiva, além da formação de uma associação dos carroceiros (JC-20.1.6), cujo presidente pretende a garantia de livre circulação com as carroças pela cidade. Nesse aspecto, um retrocesso, é preciso justamente o contrário, proibir sua circulação nas áreas centrais e movimentadas. Quanto ao projeto de organização dos catadores de material reciclável por parte de setores da prefeitura, uma matéria de três páginas sobre o assunto foi divulgada (JC-22.1.6) mas, lamentavelmente, nenhuma palavra sobre a terrível situação do cavalo. Felizmente, a eficiente ONG de proteção animal Naturae Vitae manifestou-se (JC-23.1.6), propondo soluções nada fáceis, mas não impossíveis, desde que todas as forças civis e políticas se unam para viabilizá-las.
Como era de se esperar, começaram as críticas e “sugestões”. O pior de quem nada faz, é quem critica e atrapalha quem faz. Mas a resposta não tardou. Fátima Schroeder, presidente da ONG, em carta coerente, realista e bem argumentada (JC-26.1.06), desnudou a situação precária dos carroceiros e descreveu as crueldades praticadas regularmente com os animais. Ela defende a extinção gradativa das carroças e propõe soluções. Concordo plenamente. Muitos discordarão, porque é mais fácil deixar tudo como está, mas, nessa questão, aquele velho discurso demagógico está saturado, o de geração de emprego, sustento de família e outras balelas. Essa “profissão” nunca garantiu vida digna a ninguém. Aos carroceiros, educação e condições de subsistência. Aos animais, a libertação urgente desse trabalho exaustivo e cruel. Parabéns à ONG, às articulistas citadas, ao JC que tem divulgado a polêmica. Associações e cooperativas, também excelente, desde que isso não sirva para perpetuar a escravidão do animal.
Lúcia Helena B. Alves - professora de sociologia - RG 25.852.260-4