A falta de dinheiro para os serviços essenciais do governo – segurança, saúde, educação etc., não é porque arrecada pouco – vem batendo recordes de arrecadação - mas porque gasta mal. Não são poucos nem de agora os que vêm afirmando isso. Sem falar da já enfadonha corrupção, é o desperdício outro dos grandes ralos pelos quais escoa o dinheiro público. São obras iniciadas e abandonadas, como o viaduto da Vila Falcão; são serviços de emergência que duram pouco e têm que ser feitos de novo, como a operação tapa-buraco e aqueles que parecem pequenos, como as cópias xerox desnecessárias e que acabam sendo grandes. Notícias dão conta de que o Planalto gastou quase noventa milhões de reais com xerox em 2005. Mais do que aplicou nos programas sociais. Ao custo de R$0,10 seriam 900 milhões de cópias. Foram toneladas de papel para alegria dos catadores.
As notícias saem como críticas ao governo, inclusive comparando o governo Lula com o de FHC. Mas não foi o Lula nem o Fernando Henrique que mandaram tirar as cópias. Quem tira as cópias são os funcionários e quem autoriza são seus chefes. É verdade que pela teoria da Administração o menor responsável é o que está na base da pirâmide – o funcionário, e o maior o que está no vértice – o presidente. Também não se pode negar que a austeridade deve, sempre, vir de cima. Na prática, entretanto, a teoria é outra, como escreveu Joelmir Beting. Não é difícil entender que o controle do desperdício tem que estar sob os olhos mais próximos. Qual o presidente que vai saber das cópias que o funcionário tira?
No serviço público como em qualquer tipo de organização, as funções são agrupadas sob a supervisão de um funcionário pago não para executar mas para gerenciar o grupo. Os grupos menores são reunidos em grupos maiores e estes em outros grupos maiores ainda, até completar a organização, formando uma escala gerencial do supervisor de 1ª linha, que pode se chamar chefe de seção ou encarregado, aos de níveis mais altos – gerentes, diretores, superintendentes, ministros.
Qualquer que seja o nível e o nome do cargo, a avaliação do desempenho de quem ocupa as posições de chefia deve ser feita sob dois aspectos: a) gerenciamento de recursos e b) consecução de resultados. Isto quer dizer que eles devem prestar contas pelo uso dos recursos que são colocados sob sua responsabilidade – instalações e equipamentos, materiais e suprimentos, recursos humanos, informações e recursos financeiros, e pelos resultados alcançados, pela qualidade e pelos custos. É deles que depende, portanto, o controle dos desperdícios.
O desperdício deve ser combatido como se combatem as pragas – através da conscientização, do estabelecimento de regras claras e da ação disciplinar, exigindo o cumprimento das regras e punindo a desobediência. A conscientização é importante porque há, por parte de muitos funcionários, a noção errada de que o dinheiro que está sendo gasto não é deles. No serviço público eles esquecem que pagam impostos e que é o seu dinheiro, também, que está sendo desperdiçado. Na empresa particular eles acham que o dinheiro é só do patrão, esquecendo que é o lucro do patão que garante o seu emprego. Nos dois casos o dinheiro consumido no desperdício diminui a disponibilidade de recursos para investimentos, melhoria do atendimento e para os próprios aumentos de salários. Quanto às regras, são para saber como agir e para enquadrar os desobedientes.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru