Palestina - fevereiro de 2002. Arafat me abraçou fraternalmente e antes que dissesse algo perguntei o que de prático poderíamos fazer pela Palestina. Ele colocou a mão em meu ombro e, firmemente, falou a todos: divulguem ao mundo o que vocês viram aqui, só assim conquistaremos a Paz”
Ramallah - dezembro de 2005. Depois de muitas horas de viagem, estou a enfrentar mais um check point (barreira militar israelense), para entrar na cidade palestina. A delegação se dividiu, meu guia é Harramed, um taxista palestino que teve sua casa bombardeada dias atrás; o muro se erguia a uma altura de 4 andares, a fila se estendia por 1 km, o “Muro da Vergonha”, como é chamado entre os palestinos, estava todo iluminado, dando um ar colossal àquele monumento em homenagem à incompreensão. Um soldado me pediu o passaporte e disse: “Seja bem-vindo a Israel”. Fiquei surpreso, afinal estávamos entrando na Palestina e não em Israel. Uma bomba cai nos arredores da cidade, Armud, membro da União Geral dos Estudantes Palestinos, se prontificou a me levar ao local do bombardeio. Chegamos ao local e a cena era chocante; as mulheres aos prantos, as crianças assustadas, os homens gritavam palavras de ordem contra Israel. Um F16 havia ceifado a vida de 7 pessoas.
A sistematização do processo de extermínio do povo palestino se dá através da destruição das plantações com Bulldozers (tratores militares), campos de refugiados que mais parecem campos de concentração, bombardeios diários em zonas residenciais, estupro de mulheres, escolas que se tornam QGs militares da noite para o dia, crianças que são assassinadas ou cegadas por atirarem pedras nos tanques, trabalhadores palestinos que chegam do trabalho açoitados por seus patrões judeus.
No hotel, me aguardava Harramed, com minhas malas em punho, me despedi de todos e tomamos o caminho para Jerusalém. No trevo, as indicações - Jerusalém 20 km, Nablus 15 km. Em Nablus, a presença bélica israelense era ostensiva, perguntei, então: - Harramed, você pode me levar a Nablus? Gostaria de documentar o que está ocorrendo por lá. - Mr. Gasparini, é muito perigoso, mas o sr. sendo brasileiro, acho que não há problema. Após 20 minutos por uma estrada tortuosa, o muro e o check point se aproximam, não havia fila, paramos bem devagar, quatro soldados apontaram a metralhadora em nossa direção, antes que Harramed tirasse do bolso sua identidade, ele foi arrancado do carro, jogado ao chão, levou vários chutes e socos, e eu, atônito, saquei meu passaporte e comecei a gritar “I’m Brazilian... I’m Brazilian... sou brasileiro...". Pararam de bater e vieram em minha direção: “Oh Good, Welcome, seja bem-vindo a Israel". O motorista, com a garganta envolvida pela mão de outro soldado, me olhou com certo alívio, entreguei meu passaporte e o militar, sorridente, perguntou: “Como vai a seleção brasileira de futebol, eu adoro futebol”.Respondi que estava bem, aflito, olhando para Harramed. Pedi para soltá-lo, e o soldado indagou - Aonde você vai, brasileiro? - Vou a Nablus - Não, a Nablus você não vai, de onde você veio? - Vim de Ramallah. - Então volte para lá; me puxou pelo braço e, ao pé do ouvido, disparou: "Não ande com árabes, você corre risco de vida”.
O silêncio tomou conta do carro, quebrei aquela tortura, com um ressentido “me desculpe” e o palestino respondeu firmemente: “Não há do que se desculpar... obrigado por você estar aqui”... Fiquei sem palavras e me lembrei de Arafat e percebi na face daquele homem a coragem e deterninação de um povo que resiste bravamente à ocupação Israelense há mais de 50 anos, agarrados à única coisa que lhe resta, a esperança!
O autor, Alex Gasparini, é presidente do PMDB de Bauru, coordenador regional da Fundação Ulysses Guimarães e membro da Federação Mundial das Juventudes Democráticas