Tribuna do Leitor

Meu grande amigo Cícero


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Foi no início da década de 60 que conheci um nordestino, chamado Cícero. Natural de Palmeira dos Índios, no Sergipe, cabeça chata, falante, casado, pai de 13 filhos, grande contador de “causos” e... um grande mentiroso. Honesto e trabalhador, analfabeto e não sabia nem fazer um “O”, mas sabia perfeitamente fazer as quatro operações aritméticas. Veio trabalhar no meu sítio para colher café, e nesta época a maioria dos filhos já era casada, só restavam 3 rapazes e uma moça caçula a Maria de uns 13 anos. Um belo dia ele me disse, com naturalidade: - A Maria vai casá! Fiquei assustado, pois a Maria era uma menina. – Não é muito cedo? Perguntei; e ele respondeu: lá na minha terra as moças se casam antes dos 15 anos. - Pesou mais de arroba e meia já é “muié” feita. Olhando bem de fato, a Maria era “muié” feita. Rechonchuda de seios fartos e acho que pesava mais de arroba e meia. O casamento foi realizado e a vida continuou. Continuou por mais de 30 anos e o velho Cícero ainda trabalhava comigo. Mas, afinal, o que tinha de especial este nordestino? Não sei. Sei apenas que era dotado de um carisma que quando eu esta com “S.Ch.” bastava conversar uns 5 minutos com ele e pronto. Os meus problemas já eram. O vínculo patrão–empregado nunca existiu entre nós, eu o chamava de pai e ele gostava. Mas o que ele gostava mais era contar “causos”. Se desse “corda”, facilmente ultrapassava o limite do absurdo; Lobisomem, Mula sem Cabeça, personagem de ficção, a crendice popular ganhavam a vida instantaneamente. Nunca ficou doente! Curava eventuais resfriados com infusão de ervas que cultivava no quintal . Comia de tudo! Caças como veado, jacaré, até tamanduá não escapava dos temperos da velha Carmélia, sua mulher. Dizia sempre: - O dia que eu cair na cama, pode deixar que é para morrer. E este dia chegou: foi no dia 25 de fevereiro de 1998. Estava bem velhinho. A sua idade nunca soubemos ao certo, pois não tinha nenhum documento que comprovasse. Sepultamos o velho no cemitério do Redentor e sinto que nas noites enluaradas o velho Cícero está sentado na sua campa com roda de amigos contando os seus intermináveis “causos”.

Massaru Ogino - RG 8.263 689

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