Nacional

Mais três bebês são abandonados

Por Thiago Guimarães | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Belo Horizonte - Menos de quatro dias depois do abandono de um bebê de dois meses na lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, um recém-nascido foi deixado na madrugada de anteontem em frente a uma casa na Capital mineira. Às 2h30, o interfone tocou com insistência na casa da economista Danielle Santos, 30 anos, em um bairro de classe média na zona norte de Belo Horizonte. Pelo aparelho, ela ouviu o choro da criança. Com medo, não abriu o portão e chamou a Polícia Militar.

A PM chegou em menos de dez minutos. Sobre a ardósia da entrada da garagem encontrou uma menina ainda suja de sangue e com o cordão umbilical preso ao corpo, envolvida em uma camiseta. Dentro da casa, onde estavam a economista, sua mãe e a empregada, a criança foi enrolada em uma toalha. Por volta das 3h, a menina branca, de 3,1 quilos e 49 centímetros, chegou à maternidade estadual Odete Valadares, levada pela PM. Sem identificação nem ferimentos, chegou chorando e com fome.

Segundo a médica Sandra Ornelas, indícios como a manutenção do cordão umbilical mostram que o parto da criança não ocorreu em hospital. O bebê, que não aparenta ser prematuro, continuará internado pelo menos até sexta-feira. Depois ficará sob os cuidados do Juizado da Infância e Juventude da cidade.

O caso foi registrado na 7.ª Delegacia Seccional de Belo Horizonte. O delegado Wellington Peres disse que ainda não há pistas de quem possa ter abandonado o bebê.

Outros casos

De acordo com o Juizado da Infância e Juventude de Belo Horizonte, seis bebês de até um ano foram abandonados nas ruas da cidade no ano passado. O número representa 10% do total de crianças nessa faixa etária apresentadas ao juizado em 2005. Nos últimos cinco anos, o maior número de bebês de até um ano abandonados foi registrado em 2000, com 12 casos.

“Nesses casos, o mais comum é os pais não serem localizados e os bebês irem para adoção”, disse a coordenadora de Orientação e Fiscalização das Entidades Sociais do juizado, Nádia Sales. O caso de anteontem foi o segundo de 2006.

Rio Grande do Sul

Uma menina recém-nascida foi encontrada morta pelo Corpo de Bombeiros em um córrego de Canoas (17 quilômetros de Porto Alegre) anteontem. A mãe, Regina Elaine Pereira, 30 anos, foi presa no mesmo dia, acusada de ter abandonado o bebê no local, conhecido como Valo do Leão, após o parto, no domingo.

A delegada Patrícia Tolotti Rodrigues, que estava de plantão no dia do resgate, havia pedido também a prisão preventiva do pai da criança, Paulo Ricardo Pires dos Santos, 42 anos, mas a Justiça determinou a detenção apenas de Pereira. Mesmo sem ter tido a prisão decretada, Santos continua sendo suspeito de participação no crime.

Pereira foi ouvida e encaminhada ao presídio Madre Peletier, em Porto Alegre, onde ocupa uma cela separada. De acordo com o delegado Marcínio Tavares Neto, um dos responsáveis pela investigação, os bombeiros receberam a denúncia de uma vizinha, dizendo suspeitar que Pereira havia jogado a criança no córrego. Tavares Neto informou que a vizinha ficou desconfiada porque, de um dia para o outro, Pereira aparecera sem barriga e, no entanto, não tinha criança.

No depoimento prestado à polícia, a mãe afirmou ter feito o “parto sozinha, de cócoras, sem ajuda de ninguém”. Pela versão apresentada, a criança caiu no chão e, em seguida, a mãe apenas cortou o cordão umbilical, a colocou na sacola e levou até o córrego. Segundo o delegado, Pereira disse que o bebê não se mexia. Será feita uma necropsia para descobrir se a menina realmente estava morta antes de ser atirada na água.

A mãe ainda contou, de acordo com a polícia, que fez isso porque estava sendo ameaçada por parentes que afirmavam que o filho não era de seu marido. O marido de Pereira, que está sendo investigado, disse que não sabia que a mulher estava grávida e que não estava em casa no momento do parto. Pereira já havia sido denunciada por infanticídio na 1.ª Vara Criminal de Canoas, em razão da morte de outro filho em circunstâncias semelhantes, em dezembro de 2001. O processo foi arquivado em setembro de 2003 por falta de provas.

Maranhão

Com apenas três dias de vida, um bebê encontrou um jeito de salvar sua própria vida: pelo choro. Só assim ele pôde ser encontrado embaixo de um carro, no centro de São Luís, onde havia sido abandonado pela mãe, uma adolescente de 17 anos que já tem outros dois filhos. O bebê, do sexo feminino e ainda sem nome, nasceu no dia 21 de janeiro, com cerca de 4 quilos.

Quando foi encontrado sob o carro, direto no asfalto da rua Barão de Itapery, no início da tarde do dia 24, vestia uma camiseta e uma calça e estava enrolado apenas em uma fralda. Se não fosse o choro, a menina poderia ter sido atropelada, segundo os depoimentos das duas pessoas que a encontraram. Agora, a criança está sob a guarda da 1.ª Vara da Infância, onde deverá ficar até uma decisão da Justiça. A delegada Rosa Maria Nava, da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, disse que a mãe do bebê só foi encontrada depois de um rastreamento em maternidades.

À polícia, a adolescente afirmou que não podia ficar com o bebê porque o seu pai, com quem vive, é muito agressivo e a ameaçava. Ela disse que o pai da criança, o pedreiro Carlos Henrique Ribeiro dos Santos, 27 anos, que é o pai de seus outros dois filhos e que cuida do mais novo, nem sabia da sua nova gravidez. A adolescente contou que deixou a casa dele em abril do ano passado e que só depois disso descobriu que esperava outro filho.

No inquérito, ainda não está definido se a adolescente será indiciada por abandono ou por tentativa de homicídio. Caso seja provado que o pai do bebê não sabia mesmo da gravidez, a Justiça poderá dar a ele a guarda da criança, segundo Nava.

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