Brasília - Acordo entre governo e oposição evitou ontem a aprovação da convocação, na CPI dos Correios, do publicitário Duda Mendonça e do ex-diretor de Furnas Dimas Toledo. A discussão sobre os requerimentos para levar os dois a depor ficou para a próxima semana. Diante de um jogo de ameaças veladas entre petistas e tucanos, a comissão chegou ao entendimento, nos bastidores, que a aprovação das convocações poderia criar um ambiente perigoso para os dois lados.
Duda, pelo fato de ter trabalhado tanto para petistas quanto para políticos de outras legendas, incluindo oposicionistas. Dimas, por ser acusado de chefiar um esquema de caixa dois em Furnas em 2002, cujos supostos beneficiários seriam políticos hoje em sua maioria na oposição.
O quórum da sessão administrativa da CPI realizada ontem estava alto, tanto que foram aprovadas 17 quebras de sigilo bancário solicitadas pela sub-relatoria de contratos. Todos os requerimentos colocados em pauta ontem eram consensuais. “Há um requerimento da CPI solicitando à Polícia Federal o resultado dessa investigação, para a gente não cair daqui a pouco em um festival de listas que podem ser montadas unicamente para prejudicar os trabalhos. Temos que ter equilíbrio”, disse Delcídio, referindo-se à convocação de Dimas Toledo.
O suposto caixa dois em Furnas foi colocado em evidência novamente nesta semana por causa do depoimento do deputado cassado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Polícia Federal. Uma lista sem autenticidade comprovada, com a suposta assinatura de Toledo e a qual ele renega, relaciona 156 políticos que teriam recebido dinheiro nas eleições de 2002, a maioria do PSDB e do PFL. Jefferson confirmou ter recebido R$ 75 mil de um caixa dois supostamente gerenciado pelo ex-diretor de engenharia de Furnas, que nega tudo. A Polícia Federal investiga a autenticidade da lista.
A CPI também adiou a votação do requerimento de convocação do diretor de investimentos do Real Grandeza (fundo de pensão dos funcionários de Furnas), Carlos Guerra de Figueiredo. O mesmo aconteceu com o dono do banco Santos, Edemar Cid Ferreira, por pressões como a do senador José Sarney (PMDB-AP).
O discurso oficial para não votar a convocação de Toledo, Duda e Edemar Cid Ferreira foi a ausência do relator, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), que estava nos Estados Unidos em missão oficial da CPI. As negociações políticas da comissão, no entanto, são feitas por Delcídio, que acaba definindo os rumos das investigações.
Serraglio e os deputados Eduardo Paes (PSDB-RJ) e Maurício Rands (PT-PE) foram a Nova York e Washington solicitar às autoridades norte-americanas o acesso da CPI à movimentação financeira de Duda no Exterior. O publicitário admitiu à comissão, em agosto, ter recebido recursos de caixa dois do PT, depositados nas Bahamas, por conta da campanha de 2002. O mesmo teria ocorrido com outros partidos em eleições passadas. O objetivo da CPI é descobrir a origem desse dinheiro. “Tem que ver o que estão trazendo dos Estados Unidos para ver se ouvir de novo o Duda contribui. De repente não vai acrescentar nada. Para fazer espetáculo não adianta”, afirmou a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).
Integrantes da CPI afirmaram que Duda está mandando recados para o governo de que não teria estrutura emocional para prestar novo depoimento. Nos bastidores, Duda ameaça contar tudo o que sabe sobre caixa dois de todas as campanhas que fez. Quanto a Edemar Cid Ferreira, o sub-relator de fundos de pensão, Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), propôs sua convocação devido a aplicações financeiras de fundos de pensão patrocinados por estatais no Banco Santos, liquidado em abril do ano passado.
O Ministério Público de São Paulo investiga se o banqueiro privilegiou Sarney ao liberar cerca de R$ 2 milhões que ele tinha em investimentos no Santos. A liberação da aplicação ocorreu em 11 de novembro de 2004, um dia antes da intervenção do Banco Central. A assessoria de imprensa do senador negou a interferência, afirmando que ele nem sabia que havia requerimento de convocação do banqueiro.
A sessão administrativa de ontem também foi palco de ameaças veladas. O deputado Dr. Rosinha (PT-PR) cobrou que a CPI marque o depoimento do lobista Nilton Monteiro, que revelou a lista de Furnas. A convocação foi aprovada em agosto. Na seqüência, o sub-relator de movimentação financeira, deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), pediu a palavra e cobrou o agendamento dos depoimentos de Solange Pereira, funcionária do departamento financeiro do PT, e de Soraya Garcia, ex-assessora financeira da campanha do PT de Londrina nas eleições de 2004. A senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) ainda cobrou a votação das quebras de sigilo bancário dos deputados acusados de receber dinheiro do “mensalão”.
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‘Vítima política’
Salvador - Após um depoimento de quase cinco horas à Polícia Federal de Salvador, o publicitário Duda Mendonça disse ontem que é uma “vítima política em um ano eleitoral”. “Eu confirmei tudo o que já havia dito antes espontaneamente à CPMI (dos Correios) e à Polícia Federal. Neguei as falsas declarações que estão tentando imputar à minha pessoa”, disse Duda. “O Brasil inteiro já percebeu que eu estou me transformando numa vítima política em um ano eleitoral e eu confio na Justiça brasileira”, afirmou. “Na hora da apuração dos verdadeiros fatos e das provas, as coisas vão ficar muito claras.”
O publicitário negou que tivesse conta no Exterior. Segundo ele, a única que ele tinha, a Dusseldorf, já havia sido encerrada no ano passado. A CPMI dos Correios investiga a relação de Duda Mendonça - responsável pela campanha publicitária de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pela Presidência - com um suposto caixa dois da campanha presidencial de 2002 e o esquema do “mensalão”.
Nesta semana, três deputados federais foram aos Estados Unidos para tentar o acesso às contas do publicitário no Exterior. Na conta Dusseldorf, aberta nas Bahamas, o ex-marqueteiro do presidente Lula afirma ter depositado R$ 10,5 milhões que recebeu do PT pelos serviços prestados ao partido, em 2002.
O publicitário disse à comissão, em agosto do ano passado, ter recebido recursos de caixa dois do PT. Duda Mendonça também disse que abriu a conta Dusseldorf por orientação do publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza, apontado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) como operador do “mensalão”.