Além de continuar atendendo as 314 crianças do Jardim Tangarás contaminadas por chumbo emitido do setor de metalurgia da empresa de baterias Ajax em 2002, outras cem do mesmo bairro serão acompanhadas pela equipe médica do “Projeto Chumbo”. O grupo não apresenta nível de contaminação considerado elevado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ao contrário das outras 300 crianças.
Mas o objetivo, segundo a coordenadora do projeto, a neuropediatra Niura Ribeiro Badula, é comparar resultados entre os dois grupos para obter um diagnóstico sobre os danos que a contaminação eventualmente já possa ter provocado entre os contaminados.
O procedimento será necessário porque os médicos que acompanham o caso desde 2002 ainda não conseguiram diagnosticar os problemas de saúde gerados pela contaminação, já que os sintomas das crianças com alta concentração do metal são comuns em quaisquer pessoas. “É por isso que preciso de um grupo que vive na mesma região e que não tenha sido contaminado. Isso vai servir para avaliarmos se a incidência dos sintomas constatados nas crianças contaminadas foi maior, menor ou igual à constatada naquelas com baixa contaminação”, explica Badula.
As cem crianças, assim como as 314 contaminadas, passarão por avaliações de neurologia, odontologia, fonoaudiologia, psicologia, entre outros exames. “Assim, talvez, a gente possa chegar a uma conclusão quanto aos danos que sofreram as crianças intoxicadas por chumbo. Por ora, elas apresentam o mesmo quadro de pessoas sadias”, destaca a médica.
Os sintomas mais comuns entre os menores que foram contaminados são dores abdominais, diarréia, vômito, anemia, problemas no rim e no sistema nervoso, como dores de cabeça, crises epiléticas e mudança de comportamento. De acordo com Badula, a expectativa é começar os trabalhos com o novo grupo ainda neste mês. Porém, será preciso aguardar vagas para a coleta e avaliação dos exames no Instituto Aldolfo Lutz, em São Paulo, onde ocorre o mesmo procedimento com os exames das crianças contaminadas.
Tratamento
Em 2002, assim que detectado o problema no Jardim Tangarás, cerca de 890 crianças foram submetidas à avaliação. Desse total, 314 apresentaram nível elevado de contaminação por chumbo. Dentro desse grupo ainda, 14 crianças tinham nível superior a 25 microgramas de chumbo por decilitro de sangue, o que é considerado de extrema gravidade pela OMS. Elas foram internadas e tratadas com medicamentos.
Segundo Badula, os outros menores, assim como ocorre até hoje, receberam acompanhamento médico. Suas casas foram pavimentadas, os terrenos baldios do bairro foram capinados e passaram por uma ação de limpeza, assim como prevenções com hortas e animais foram tomadas. A fábrica também foi desativada do local. “Todas essas iniciativas já nos mostram bons resultados, porque o nível de chumbo no sangue das crianças tem diminuído consideravelmente. Pretendemos acompanhá-los por cerca de dez anos. Provavelmente, não terão problemas futuros”, informa a médica.
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Justiça
A ação civil pública que o Instituto Ambiental Vidágua move contra a empresa de baterias Ajax ainda tramita na Justiça. A Organização Não-Governamental pede reparos aos danos ambientais e à saúde da população provocados em razão da emissão de chumbo.
“Tudo o que a gente solicitou ao juiz foi acatado. Falta, agora, a sentença do caso, que nada mais é do que a restauração do dano provocado ao meio ambiente e à saúde da população”, diz o secretário-executivo do Vidágua, Ivan Ferrazoli de Marche.
Ele avalia que a empresa deva ressarcir, só em perdas de fauna e flora, cerca de R$ 150 mil por hectare.
O gerente de planejamento da Ajax, Natanael Pedroso, explica que a empresa está cumprindo todas as determinações da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Ele diz que a área da empresa que foi desativada no Jardim Tangarás deve ser transformada num centro de lazer destinado aos funcionários da firma. O projeto ainda está em estudo.