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Família espanhola garimpa história

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 3 min

Logo após a abolição da escravatura, em 1888, imigrantes espanhóis e italianos começaram a chegar ao Brasil para atuar na lavoura e em Bauru não foi diferente. Alguns fizeram história, como a família Fernandes, do sul da Espanha, que se fixou no município entre 1894 e 1895, mais especificamente na área onde hoje fica a quadra 1 da avenida Nações Unidas, próximo ao córrego Água do Castelo, com o sonho de uma vida melhor. Agora, 112 anos depois, descendentes continuam na cidade e cultivam outro sonho: ver o fundo de vale transformado em um grande parque, o Água do Castelo.

Com a possibilidade de tornar-se o “Ibirapuera de Bauru”, a área verde dividiria espaço com a avenida Nações Unidas Norte. Em 1933, foi naquela região que os Fernandes, decidiram trabalhar e criar seus filhos. Antes, porém, Gabriel Fernandes, o patriarca da família, atuou como administrador da Fazenda Monte Azul.

De acordo com informações do historiador e memorialista Gabriel Ruiz Pelegrina, 84 anos, as famílias chegavam para atuar na lavoura, principalmente de café, que crescia na região. “Tínhamos as fazendas Val de Palmas e Corumbá. Muitos se instalaram na Baixada do Silvino (hoje área próxima da rodoviária), inclusive meus pais e sogros, que são espanhóis, como os Fernandes, os Lira, os Montilha e muitos outros”, recorda.

Com o objetivo de reviver seus laços afetivos e transmiti-los aos mais jovens, atualmente, a família Fernandes busca em arquivos pessoais, cartórios e na memória oral dos mais antigos, a verdadeira história dos pioneiros Gabriel e Dolores Fernandes. A pesquisadora e educadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Laurita Fernandes Fassoni, filha de Stela Fassoni e Miguel Fernandes (na Espanha, o nome da mãe é colocado por último, tradição mantida pela família), o primogênito do casal imigrante, casado em Bauru em 1912, garimpa a história com a participação de todos os parentes.

Um dos documentos encontrados traz a descrição da área adquirida, na época: “Na Fazenda Flores, 2 alqueires e uma quarta, mais ou menos, rancho de barro, coberto de sapé; casa de morada, 300 bananeiras e outras pequenas benfeitorias, dividindo com Vicente Barbugiani, com Manoel Alves de Figueiredo e com o córrego das Flores, imóvel este havido conforme transcrição n.º 1993”, transcreveu do cartório Laurita.

A maioria dos filhos e netos ainda possui terrenos na região onde viveram os pioneiros e vários construíram lá suas casas, na esperança de um dia ver a área transformada em um dos pricipais locais públicos de Bauru. Hoje, na região está o loteamento Fonte do Castelo, do qual são beneficiários os herdeiros Miguel Sanches Fernandes e irmãos.

Tradições espanholas

Já na quinta geração, os Fernandes não perdem os hábitos festivos dos espanhóis. Ainda se reúnem em grandes mesas para troca de experiências e afetos. Alguns são vizinhos de muro, o que facilita a comunicação e o apoio entre eles. Cinco casas estão localizadas na região do Jardim Godoy, enquanto os filhos de Amélia e José vivem do outro lado, no Parque União, como a bisneta Juliana, 21 anos, que também participa das festividades.

Os filhos de José Sanches Fernandes continuaram no ramo de bebidas e mantêm, até hoje, as tradições católicas herdadas dos pais. “Fazemos o terço tradicional e todo ano temos a festa de São Pedro, com reza, mastro, famílias e amigos”, diz Edson Fernandes, um dos filhos de José. “Para nós, era comum viver em torno dos patriarcas”, recorda Laurita, lembrando das receitas de rosquinha de pinga e pães caseiros.

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