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‘Cinema Paradiso’ toca memória afetiva

Por Thiago Stivaletti | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Quando foi lançado no Brasil, “Cinema Paradiso” virou uma coqueluche. Muito antes de “Titanic”, foi daqueles filmes vistos duas, cinco e até dez vezes pelos fãs. Qual o segredo do sucesso deste filme de um diretor italiano que estava apenas no seu segundo longa-metragem na época? De uma forma evidente, o filme nos fazia compartilhar do fascínio dos moradores de um pequeno vilarejo da Itália que freqüentavam o cinema do título durante a Segunda Guerra. Choros, gargalhadas, gritos, o homem emocionado que decorava e antecipava às lágrimas as falas de um filme, o desapontamento coletivo quando pela enésima vez uma cena de beijo era cortada.

É como se entrássemos pela primeira vez no cinema, compartilhando o encanto pelas imagens em movimento. É ali que o menino Totó (Salvatore Cascio), órfão de pai, experimenta a sua primeira grande paixão, o cinema, e toma como figura paterna o projecionista do cinema, Alfredo (Philippe Noiret). Em uma segunda leitura, que fica mais clara com os filmes posteriores do cineasta, Tornatore ensaia aqui o tema de toda a sua obra, a nostalgia.

O filme é conduzido a partir do presente (1989) do ponto de vista de um Totó que se tornou cineasta - mas nunca saberemos que tipo de filme faz - e aparece triste e desiludido. A partir dessa abertura, a força da memória de uma infância feliz cheia de descobertas ganha ainda mais encantamento, ajudada pela trilha inesquecível de Ennio Morricone. É Morricone, aliás, quem faz na memória afetiva do espectador a ponte com o grande mestre italiano da auto-referência e da volta às origens, Federico Fellini.

“Cinema Paradiso” sai no DVD em duas versões: a original que foi vista nos cinemas e uma versão estendida, com mais de 50 minutos de cenas inéditas. Essa segunda versão chegou a ser exibida nos cinemas americanos depois que o filme ganhou o Oscar de filme estrangeiro, mas não chegou ao público brasileiro. Foi também a primeira versão lançada na Itália e que se provou um fracasso. Foram os organizadores do Festival de Cannes que sugeriram a Tornatore um corte radical.

A comparação entre as duas versões demonstra que um grande festival não existe apenas para sepultar a carreira de alguns filmes mal-recebidos, mas pode salvar um filme popular que, de outra forma, não teria encontrado seu público. A versão estendida se dedica a criar um desfecho para a história de amor entre Totó e Elena, sua primeira namorada na juventude.

O Totó mais velho (Jacques Perrin, diretor do recente “Migração Alada”) reencontra Elena (Brigitte Fossey), que não aparecia na versão mais curta. É um reencontro desnecessário e em tom televisivo, que tira o foco da grande relação desenvolvida no filme: aquela entre Totó e seu mentor Alfredo, que lhe ensina o amor ao cinema e, por meio dele, o amor à vida. A não ser que você seja fã incondicional do filme, é melhor comprar o DVD avulso com a versão para o cinema, que reúne ainda bons extras: entrevistas com Tornatore e sua equipe, trecho da coletiva do filme no Festival de Cannes e um documentário sobre o diretor.

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